Já a criatura que praticou o crime, também parece agir por instinto, porém aqueles mais baixos, mais baixos até que o de qualquer animal que conheço, se é que se pode classificar a atitude de seres humanos desse naipe como instintiva. O caso é que o homem mais velho e seu filho, confundidos com um casal homossexual, foram barbaramente agredidos e o pai teve sua orelha decepada a dentadas por um dos agressores. Quer dizer, eu não sou "psica" (sic) para analisar a carga de significado por trás do ato, bastante erótico, de morder a orelha de outra pessoa do mesmo sexo até decepá-la, mas existe sim uma carga de desejo reprimido nesse tipo de agressão. A orelha foi cordada a dentadas, num ato de agressão muito íntimo que caracteriza a maioria dos crimes passionais; aqueles crimes que envolvem geralmente pessoas que de alguma forma nutrem sentimento por outras e extravasam esse sentimento de forma negativa e fatal. Qualquer estudioso de casos criminais pode explicar isso. Quem age friamente mata a distância, usa armas de fogo, veneno e até bombas (no caso de atentados terroristas), porém as pessoas que praticam crimes passionais usam armas brancas ou o próprio corpo como instrumento de agressão e é tudo feito por impulso, em um ato desengatilhado pelo extravasamento no conflito de fortes sentimentos.
Aprendi isso há muito tempo, quando ainda era quase adolescente: O contrário do amor é a indiferença. O ódio nada mais é que o amor disfarçado de vilão da novela das oito. Então, desculpem os amigos que dizem não existir homofobia no Brasil e desculpem também aqueles que dizem sequer existir o conceito de homofobia, mas isso me parece sim, um crime motivado pelo medo e pelo ódio aos homossexuais. A pessoa, ou pessoas, que agrediram aquele pai e filho, porque supunham que eram um casal gay, possuem sim uma carga de homoeroticidade reprimida (e nem sei se existe o termo “homoeroticidade”, porém que se foda o léxico) e a manifestação dessa homoeroticidade teve seu clímax na mordida na orelha.
Tem certas coisas que eu não consigo entender. Certamente, pela estupidez ser algo incognoscível. Pior é que o caso do ataque no interior de São Paulo nem ganhou tanto destaque na mídia, certamente porque a família das vítimas se sentiu constrangida com a exposição e preferiu abafar o caso, mas, enfim, quem sou eu para julgar os motivos pelos quais eles resolveram se resguardar? Talvez estejam simplesmente com medo. Eu, no lugar deles, estaria, porém isso não me impede de me identificar com o drama, não só dessa família como de todos os homossexuais que eu conheço. Ou não. E acho que também é o momento de agir, de cruzar a linha e marcar posição, porque agir assim não se trata de militância, mas de exercício de cidadania. Eu não sou militante LGBTXYZ e nem tenho nenhuma pretensão a sê-lo, mas acredito que há momentos na vida em que você, mesmo não sendo parte de nenhuma “minoria” historicamente discriminada, tem que lutar pelos direitos deles. Direitos básicos que são garantidos a todos, mas a eles, por conta de erros históricos e perpetuação da ignorância, são negados. Eu não sou negra, nem homossexual, vivo no país em que nasci, não sou gorda, não uso óculos nem aparelho nos dentes, porém isso não me isenta de me sentir agredida com ataques contra essas categorias. E não estou falando de uma agressão fruto de um erro de avaliação, como no caso de São João da Boa Vista, falo de uso do bom senso, da razão e dos bons sentimentos. Onde eles ficam no coração dessas pessoas? Que tipo de doença social é essa que divide a sociedade em guetos onde bandos se perseguem e se agridem? Quando vejo o sofrimento e a ameaça sendo imposto ao meu semelhante, isso também me machuca, mesmo que eu não seja vítima de qualquer tipo de intimidação ou ameaça naquele momento, mesmo que não participe daquele grupo.
Se identificar com o sofrimento alheio chama-se empatia, uma característica bem humana e preciosa, porém muito fácil de se perder. Que o digam os antigos romanos que iam ao Coliseu para assistir seus semelhantes virarem ração de Leões, ou o pessoal que praticou a caça às bruxas na idade média. Tirar a humanidade e os direitos básicos de outros ser humano é o primeiro passo para perder a empatia, por isso o perigo de se omitir, quando se é necessário agir, é muito sério. Os animais sociais, como pássaros e os símios até se confortam nos momentos de angústia, mas somente o ser humano consegue atribuir significado ao sofrimento e redimir-se através dele. O dia em que perdemos a empatia pelos nossos semelhantes, perderemos também nossa humanidade e daí a atacar os outros a dentadas é apenas um passo.
E se você é do tipo que se cala e que pensa “não é da minha conta”, me desculpe, mas você pode está errado. Você pode até não ter mordido a orelha de ninguém na sua vida, mas de certa forma também tem culpa pelas dentadas que seus semelhantes levam por aí, mundo afora: Quem se omite também tem responsabilidade.
Exercite sua empatia. Sempre.
"Primeiro vieram buscar os judeus e eu não me incomodei, porque não era judeu. Depois levaram os comunistas e também não me importei, pois não era comunista. Levaram os liberais e também encolhi os ombros. Nunca fui liberal. Em seguida os católicos, mas eu era protestante. Quando me vieram buscar, já não havia ninguém para me defender."Martin Niemoller
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