quarta-feira, 27 de abril de 2011

She's got Bette Davis Eyes

Bette Davis e seu olhar blasé
Todo mundo que ouve falar pela primeira vez sobre “A Malvada” (All About Eve) pensa imediatamente que a dita cuja que dá nome ao filme é a personagem de Bette Davis. Ledo engano. Talvez isso aconteça, porque o título do filme em português não ajuda muito a elucidar o espectador sobre a trama, que fala basicamente sobre os bastidores do teatro e sobre os conflitos vividos pelos seus elementos. O título do filme em português é uma espécie de “spoiler” que falhou, ou seja, contaram o milagre, mas não deixaram claro quem era o santo que o realizou. :)

Outra coisa que contribui para a confusão, suspeito eu, é a aura construída em torno de Bette Davis. Atriz talentosíssima, Bette Davis tinha aquela expressão, aquele olhar blasé, típico das pessoas consideradas pelos outros como arrogantes e (erroneamente) más. Oras, pensando bem a arrogância não é uma característica somente dos maus, mas dos bons, principalmente. Quer dizer, dos bons entre aspas, ok? Aquele tipo que meu avô costumava denominar como “santarrão”, gente que volta e meia precisa se afirmar por todos os meios possíveis, se jactando de sua virtude, sua bondade, sua... “santidade”. É como se eles precisassem recitar certos mantras para conseguir convencer os outros e a eles mesmos daquilo que tanto afirmam publicamente. Porém, o santarrão jamais é explícito - mesmo quando se jacta de sua superioridade -  e a boa e velha arrogância, aquela que é para valer mesmo, precisa ser explícita para ser levada em consideração pelos críticos.

Dia desses, eu assisti o filme “All About Eve” e, confesso, me identifiquei demais com a personagem de Bette Davis, Margot Channing. Não que alguém tenha se aproximado de mim para usufruir da minha suposta popularidade, embora algumas pessoas ( na internet mesmo), já tentaram fazer algo parecido em "vidas" passadas. Porém, relevem isso, porque eu já relevei. Apenas mencionei para criar um ponto de referência. Voltando ao assunto do filme, eu me identifiquei com Margot/ Bette, porque tal como elas eu também tenho aquela expressão, aquele olhar que foi imortalizado em uma música famosa da década de 1980 (*). Pelo menos já me disseram isso antes e não tenho porquê duvidar da pessoa que fez essa afirmação, já que ela fez isso mais como crítica do que como elogio. Mas como sou arrogante, feito Bette Davis, eu assumi a crítica como elogio e continuei minha vida.  :)
E se você acha que ter “Bette Davis Eyes” é algo legal, deixa eu te falar uma coisa: na maioria das vezes é, porém, deixa eu falar outra coisa: Também não é nada fácil.

Não é fácil, porque os homens até se deixam seduzir pelas Bette Davis, mas sonham mesmo é em ficar com as Marilyns Monroes. Porque Marilyn é doce e bela, Bette é forte e independente; Marilyn vai satisfazer todas as vontades deles, ser submissa, enquanto Bette vai escravizá-los à sua vontade. Pelo menos é isso o que pensam...
Resumindo, os homens temem Bette, sentem-se poderosos com Marilyn. Bette pensa e, muito embora não tenha aquela beleza infantil e graciosa (ser Bette Davis não é sinônimo de ser extremamente bela e sexy),  a mulher "Bette Davis" sabe se impor, se fazer querida, ficar extremamente charmosa e até mesmo, ora veja, bela. Porém esse tipo de mulher pode ser sarcástica ou irônica em algumas ocasiões, e isso sinaliza que ela tem atividade neuronal dentro da caixa craniana. E mulher que tem atividade neural, costuma não se deixar conduzir, tal como uma dócil égua em um galope matinal pelas campinas do Rio Grande.  E o medo de ser atirado com a cara no chão acaba condenando a mulher Bette Davis a momentos de solidão dignos de uma mulher "Greta Garbo".

Porém eu até entendo eles, acho que se o homem tem uma personalidade fraca, nada o assusta mais do que a sensação de que perdeu o controle sobre sua companheira. E ao lado de uma mulher "Bette Davis", os homens em geral sabem (ou pressentem) que no máximo dividirão o controle, nunca serão donos dele. E nada é tão ou mais assustador que isso. Pelo menos para uma parcela significativa do mundo masculino.
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* Bette Davis Eyes:  Lógico que essa comparação não é de minha autoria, já que a própria música fala sobre esse tipo de olhar/mulher/whatever. E, embora hoje, depois de saber o contexto em que essa comparação foi aplicada a mim, eu até concorde em parte com ela, quero deixar claro que mesmo que a comparação fosse minha e isso parecesse arrogante para alguns leitores "caga-regras", sempre é bom deixar claro que o blog é meu e, se quiser,  aqui eu me comparo até a Jesus Cristo, se isso for necessário para explicar algo que sinto. E, embora tantos já tenham se comparado a Jesus, como, por exemplo, o ex- presidente desse país, inclusive, deixo ainda claro o seguinte: Sim, você não é obrigado(a) a concordar comigo; sim, tudo o que afirmo aqui é problema meu e; sim, isso não é da conta de ninguém. 

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ainda no clima da Páscoa...

Fiquei meio pasmada quando soube nesse fim de semana que o ator, Jeffrey Hunter (*1926; +1969),  que interpretou Jesus Cristo no clássico da Warner, "Rei dos Reis", teve que raspar o peito e axilas para refilmar a cena da crucificação.  Sério mesmo.
Imagine que o ator, com aproximadamente trinta e cinco anos e todo o "Physique du Rôle" para interpretar Jesus Cristo no cinema, precisou dessas correções para se adequar perfeitamente ao papel de "Messias", porque um Jesus com pêlos no peito evocava uma sensualidade masculina que ofendia a sensibilidade puritana da platéia da época.
E Jeffrey nem tinha tantos pêlos no peito assim, como podemos observar na última imagem abaixo:
Jeffrey também precisou alongar e afinar (com recursos de maquiagem) o nariz, que era um pouco curto e com abas meio largas para o perfil messiânico que conhecemos através de pinturas renascentistas.
Nada é perfeito. 

terça-feira, 12 de abril de 2011

Estréia da Semana: Rio

Rio (Rio) - EUA, 2011. Direção de Carlos Saldanha (Era do Gelo 2 e 3); Genero: animação; Elenco: Anne Hathaway, Jesse Eisenberg, Jamie Foxx, Rodrigo Santoro, Will.i.am, Leslie Mann, Tracy Morgan, Hal Holbrook.

Estreiou na última semana, batendo recordes de arrecadação e bilheteria nacional,  a animação Rio, filme celebrado por aqui como uma declaração de amor pela cidade, já que o diretor, Carlos Saldanha é, além de brasileiro, também Carioca. Não dá para assistir Rio e falar mal daquilo que se mostra ali, porque é um lado da cidade que realmente existe e é extremamente sedutor. Eu adoro o Rio de janeiro, amo de paixão, e posso dizer que sim, o Rio de Janeiro é uma das cidades mais lindas e apaixonantes do mundo.

O filme, aliás, é um sopro de ar fresco na auto-estima do carioca (e também dos brasileiros), porque ao contrário de referências anteriores como Simpsons e até mesmo o último filme do Stallone, Rio veio para as telas de cinema dar um “up”na moral da cidade que será Sede das Olímpiadas de 2016. Deve ser por isso que, dizem por aí, que a Rio Filmes investiu pesado na animação, uma vez que a expectativa da empresa pública municipal de investimento em audiovisual é atrair produções hollywoodianas para filmar na cidade e projetar positivamente a imagem do Rio de Janeiro para o resto do mundo. Oremos.



Penso que também foi positivo convidar um nativo para dirigir a produção, porque além do talento e do primor audiovisual que encontramos em animações anteriores como Era do Gelo 2 e 3, em quase todas as cenas externas dessa nova animação vemos o Rio de Janeiro com um olhar que só um nativo consegue ter: cenas deslumbrantes e primorosas, aliadas a um olhar de indulgência com as belezas e aspectos turísticos da Cidade Maravilhosa que não víamos por aqui desde que Walt Disney lançou “Você Já foi a Bahia?” em 1944. A cena do desfile de Escola de Samba, disponível em traillers no Youtube, é de tirar o fôlego, enquanto que a cena inicial parece um musical, digno desses de figurar em um épico da Disney.
Como não poderia deixar de ser em tempos politicamente corretos, o filme também tem uma mensagem ecológica, já que fala da necessidade de preservação das espécies e do combate ao tráfico de aves.

Sem dúvida não faltarão críticos reclamando que "Rio" não mostra a “realidade” da cidade, com suas favelas e violência urbana, mas – Oi? – não podem se esquecer que é uma animação destinada para crianças e exatamente por conta disso, a animação pega leve na hora de mostrar cenas como na Praia, no próprio desfile de Escola de Samba e também no Baile Funk. A animação Rio não mente, mas mostra apenas o lado luminoso da Cidade Maravilhosa, um Rio que todos sonhamos e, quem sabe, um dia poderemos ter.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Momento de reflexão

Um Cão apenas

Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito – eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gasta, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrimas que há nos olhos das pessoas muito idosas. Com grande esforço acaba de levantar-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer enquanto dormem...
Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves: acomodando as patas da frente, arrastando o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou gesto. Mas eu não queria o vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento... Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.

Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer neste complexo mundo dos homens.
Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar sem dúvida sobre o caminho, como se fosse visitante habitual, e começou a descer as escadas e suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era no entanto uma forma de vida. Uma criatura desse mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance; talvez tivesse fome e sede; e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir assim humilhado, e tão digno, no entanto: como alguém que respeitosamente pede desculpas por ter ocupado um lugar que não era seu.

Depois lembrei que todos nós somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa, e a escada que descemos e a dignidade final da solidão.
(Cecília Meireles)

Toda vez que leio esse texto, eu me emociono. Já vi muitas vezes o olhar desse cãozinho, não só em animais, como também em pessoas; já senti muitas vezes o mesmo amor caridoso e impotente, do qual fala a autora. E todas as vezes que relembro esses momentos, sinto o remorso roer meu coração. Deixar um sentimento intangível de caridade se transformar em algo mais concreto que apenas empatia inútil não é tão difícil, mas exige coragem. Porém fui fraca, covarde, me omiti. Terei que carregar o peso do remorso até o fim de meus dias, porque às vezes é mais fácil perdoar nosso próximo do que a nós mesmos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sobre o possível "plágio" em Inception

Está é para os fãs de quadrinhos e quetais: “Come out, come out, wherever you are.” :)

Poucos sites dedicados ao Cinema falaram sobre isso, mas no meio dedicado aos quadrinhos, principalmente nos Estados Unidos, o assunto do momento são as diversas coincidências entre o roteiro de “Inception” (A Origem), direção de Christopher Nolan, e a história em quadrinhos “Uncle Scrooge and the Dream of a Life-time”, publicada em 2002, na Finlândia e posteriormente (2004) nos Estados Unidos.


A repercussão, lógico, ainda é pequena, mas se confirmado o plágio (algo que eu não acho que seja realmente possível), será um escândalo digno de equiparar, senão superar, o escabroso caso Milli Vanilli (quem lembra?) em meados de 1990. Afinal de contas trata-se de um filme que ganhou justamente o Oscar de "melhor roteiro"  em 2011 e, lembrando-se que teve "tons of" de gente famosa, gabaritada, etc., rasgando seda para Nolan, o escandâdo de um possível plágio não estará no gibi. Ou estará, sei lá. :)

Sobre as coincidências, tal qual o filme, a história em quadrinhos começa com os Irmãos Metralha usando um mecanismo capaz de entrar nos sonhos de Tio Patinhas e roubar seus segredos. Os Metralhas planejam a combinação do segredo do cofre do pato muquirana, mas ao entrar na mente do velho pato, ficam confusos não conseguindo distinguir entre a realidade e os sonhos. No filme “A Origem” totens ajudam os viajantes de sonhos a distinguir a diferença, na história em quadrinhos isso não fica claro. Apesar disso, outra coisa surpreendente nela é o fato do Tio Patinhas só ter sonhos considerados “ruins”, ou seja, o que para os Metralhas parecia um pesadelo, para o Tio Patinhas era uma espécie de Purgatório psicológico. Outro ponto em comum com Inception.

Descobrindo o plano dos Metralhas, Donald entra na mente do tio para salvá-lo – O Professor Pardal explica que existe o risco do velho pato acordar com os Metralhas dentro de sua mente, algo que poderia causar sua loucura ou morte. Na mente do Tio Patinhas, Donald descobre que a única maneira de frustrar o plano dos metralhas é direcionar seus sonhos. Outra descoberta de Donald é que ao serem “lançados brutalmente” para fora do sonho, os Metralhas acordam. No caso da revista em quadrinhos, os Metralhas devem cair no limbo formado pela dissolução do sonho antigo, enquanto que no filme “A Origem” o esquema é ligeiramente diferente, porém as semelhanças persistem.

Outra coincidência entre Inception e a revista em quadrinhos é o fato de Tio Patinhas nunca se lembrar do sonho anterior, exatamente como a personagem do ator Cillian Murph em “A Origem”. E, lógico, o romantismo não fica de fora. Tio Patinhas vive sonhando o mesmo sonho com a primeira namorada, Goldie. Um sonho que nunca acaba, porque ele sempre acorda antes dele terminar. Embora nos quadrinhos não fique claro se Goldie morreu ou está viva, tal qual Di Caprio, Tio Patinhas tem sonhos recorrentes com a mulher que amou, porque se sente angustiado por alguma coisa que ocorreu no passado e pela qual se culpa.
Enfim, se alguém quiser ler a história em quadrinhos e procurar mais semelhanças entre ela e Inception (ou contestá-las), ela está disponível aqui, em inglês.

A polêmica, por enquanto, existe mais a título de curiosidade, porque mesmo a Disney – detentora dos direitos sobre a história em quadrinhos – não considerou ou se pronunciou sobre o assunto. Quanto a Nolan, ele defende-se afirmando que a escrever “Inception” no final dos anos 90, bem antes da publicação da história em quadrinhos pela Disney.