quinta-feira, 20 de agosto de 2009

“Mulheres do Front” - Le Soldatesse

Ano de lançamento: 1965; gênero: Drama/Guerra. Direção: Valerio Zurlini; Elenco: Anna Karina (Alphaville), Lea Massari, Marie Laforêt, Tomas Milian, Mario Adorf, Valeria Moriconi, Aleksandar Gavric, Rossana Di Rocco, Milena Dravic, Guido Alberti, Mila Stanic.

Lançado em DVD em 2009, Mulheres no Front aborda basicamente o dilema da miséria moral provocada pela guerra. Numa Grécia ocupada pelos soldados italianos durante a Segunda Guerra Mundial, Valério Zurlini, nos apresenta a história de um grupo de mulheres gregas que se vendem - corpos e dignidade - aos invasores em troca de um pouco de comida. Ou seja, é uma história basicamente sobre sobrevivência e os sacrifícios. E miséria.

Na história, o grupo de mulheres aliciado para prestar esse “serviço” é bem heterogêneo e incorpora desde sonhadoras românticas como Elenitza (Anna Karina) à patriotas como sua amiga, Eftikia (Marie Laforêt), a qual, cada vez que se deita com um soldado, se sente como traidora a serviço do inimigo. No meio desses dois extremos de comportamento, talvez para contrabalançar os estereótipos representados pelas amigas Elenitza e Eftikia , temos Toula (Lea Massari) – uma mulher que eu classificaria como “prática” e que sem maiores problemas ou dilemas morais, transa com qualquer um, não importando-se se ele é um soldado fascista ou não. Toula é daquele tipo que eu costumo chamar de “folha ao vento”. Ela não resiste a onda, mas deixa-se levar por ela e, se possível, surfa até chegar à praia.

Nesse filme o clima é de desencanto total. Mulheres no Front não é definitivamente um filme sobre heroísmo ou patriotismo, menos ainda um filme sobre feminismo. O seu principal objetivo é denunciar um dos inúmeros abusos cometidos contra a população civil durante a Segunda Guerra Mundial e, no que diz respeito a essa função, tudo é feito com eficiência e senso artístico dignos de Valério Zurlini.

Entre os homens, a personagem mais interessante na minha opinião é a do Tenente Martini ( Tomas Milian) responsável pela inglória missão de fornecer mulheres para os soldados que estão no front de batalha, tarefa que ele cumpre com evidente desprazer, embora, como todo soldado honrado, seja extremamente profissional no desempenho dessa função. Imagino que para um homem como o Tenente Martini, tal tarefa se mostre humilhante, indigna de um soldado, porém um soldado honrado não tem escolha, precisa cumprir sua missão. É isso ou a deserção, vergonha ainda maior. Viajando ao lado do Tenente Martini, de carona em seu caminhãozinho velho (o meio de transporte das mulheres tratadas como mercadoria), está o seu companheiro de farda, o Major Castagnoli ( Mário Adorf), um tipo tão superficial quanto Toula e que não parece sofrer nem um pouco com o dilema moral que atormenta o seu companheiro de farda.

Mulheres do Front não é aquele tipo de filme que você assiste e depois suspira, encantada com o enredo romântico por trás da História; longe disso, ele promove por trás de todo aquela tristeza e desencanto uma oportunidade para o espectador pensar sobre os dilemas morais enfrentados pelo ser humano quando confrontado com uma adversidade maior que ele. Nota 8.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Marido por Acaso (The Accidental Husband)

Ano de lançamento: 2008, gênero: comédia romântica. Direção: Griffin Dune; Roteiro: Mimi Hare, Clare Naylor, Bonnie Sikowitz; Elenco: Uma Thurman, Colin Firth, Sam Shepard, Isabella Rosselini e Jeffrey Dean Morgan.

Olha, o filme não decepciona, embora a história não seja nem inovadora e nem arrebatadora. Um amigo costumava me dizer que “comédia romântica” é aquele gênero de filme onde existem variações sobre um mesmo tema: A mesma história e os mesmos conflitos sexistas, costurados com um grande amontoado de clichês românticos e alguns toques de preconceitos de ambos os lados.

Marido por Acaso não foge a regra de enlatados do gênero e ouso dizer que a única coisa realmente surpreendente no filme é a interpretação do ator Jeffrey Dean Morgan, o qual eu já conhecia da série Supernatural. O entrosamento entre ele e uma atriz já conhecida das grandes telas como Uma Thurman foi uma grata surpresa e em alguns momentos ele chega inclusive a roubar a cena, como por exemplo na cena entre ele, Isabella Rosselini e Uma Thurman na loja de confeitos para festas de casamento.
Jeffrey convence no seu papel mocinho bonitão, simples e másculo, justamente aquele tipo que jovens sonhadoras desejam em suas vidas (ok, não torça sua boca para mim, é assim que as comédias românticas imaginam a maioria das mulheres).

Não espere gargalhar, porque o gênero “comédia romântica” não é o mais indicado para despertar esse tipo de reação. Talvez você consiga sorrir em alguns momentos, ou o mais provável é que o filme desperte uma fúria feminista de dentro do seu útero, mas enfim, quem se arrisca a assistir esse gênero de filme não pode reclamar muito depois.

Outro ponto digno de nota na história foi o fato dos roteiristas investirem no conflito social como forma de fazer humor crítico. Percebe-se isso principalmente nas cenas onde fica explícito o óbvio o desconforto da doutora WASP diante de um estilo de vida ao qual não está acostumada. O leve toque de humor politicamente incorreto da história fica por conta do pai da família indiana ( Ajay Naidu), porém não é nada que possamos considerar desrespeitoso ou de mau gosto.
No mais, eu confesso: Uma Thurman, embora belíssima, está bem apagadinha no papel de Dra. Emma Lloyd. Se me perguntarem, eu ainda prefiro ver ela em Kill Bill. Nota 5,5.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Ten Little Niggers

Quando Agatha Chirstie escreveu o livro “Tem Little Niggers” (traduzido no Brasil como “O Caso do Dez Negrinhos”), o termo “nigger” não tinha o contexto negativo que atualmente possui na língua inglesa.

Porém, os tempos mudaram e atualmente, nos Estados Unidos, nigger (negro), é um termo extremamente racista. Pensando sobre isso e, para não gerar polêmica e ofender a comunidade afro descendente norte-americana, os detentores dos direitos autorais sobre a obra de Agatha Christie acharam que seria prudente mudar o título do livro para And Then There Were None (E então não
sobrou nenhum).

Achei a decisão lamentável. Mudar um título de livro ou tentar “maquiar” uma história só porque certos termos adquiriram significados considerados “politicamente incorretos” com o passar do tempo não é a saída para mudar o mundo. Pelo contrário, isso me parece mais uma decisão comercial que ideológica. Afinal de contas, para explicar essas mudanças existem recursos perfeitamente aceitáveis, como as já famosas “notas de rodapé” e “introduções” . Que façam uso delas, então. Ou os editores imaginam que os novos leitores do século XXI são tão “semi-analfabetos” que ignoram o que está escrito em uma “nota de rodapé” ou uma simples anotação?
Porém, querer “reformar” uma obra apenas para adaptá-la ao contexto do século atual é abusar do direito ao revisionismo. Do alto dessa estúpida arrogância, pessoas acham-se no direito de julgarem as gerações passadas como se fôssemos melhores que elas. E não são. São apenas seres humanos que deixaram-se afetar pelo excesso de escrúpulos e isso, na minha opinião, é uma forma de preconceito. Fica então o fato em destaque para futura reflexão: É certo mudar títulos e rever traduções e termos já consagrados usados em certas obras, apenas para adaptá-los aos novos conceitos morais do século atual? Essa é uma questão que as gerações futuras terão de responder e dela dependerá – talvez - a riqueza cultural do legado deixado pela história humana ao longo dos séculos.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Die Welle (The Wave)

Ano de Lançamento: 2008 ; Gênero: Drama/Terror. Direção: Dennis Gansel , estrelado por  Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul, Jacob Matschenz, Elyas M'Barek e Cristina do Rego.

Die Welle é um remake de um filme de 1981 com o mesmo título, com a realização, adaptação e argumentação de Dennis Gansel. O elenco de atores alemães é formado por nomes desconhecidos do público nacional e conta, inclusive, coma participação de uma brasileira: Cristina do Rego, uma fluminense natural de Anchieta-RJ.

O filme original é curto, tem aproximadamente 46 minutos e foi feito exclusivamente para TV. Na realidade a idéia original era que o filme passasse nas salas de aula dos EUA e mostrasse aos jovens como se processa e funciona a manipulação ideologica das massas.

Confesso que desconhecia completamente tanto o próprio filme em si, quanto a fascinante história que deu origem a ele, mas, depois que o programa terminou, fui pesquisar sobre e não só achei um artigo muito interessante, como também encontrei o filme original, em inglês, o qual, aparentemente, segundo comentários de amigos no Twitter, é bem melhor que o remake de Dennis Gansel. Li o artigo, assisti ao filme e achei tudo absolutamente fantástico. É o tipo de filme que faz você ficar pensando durante dias sobre ele.

Inspirado em um incidente real ocorrido em uma escola secundária norte-americana em 1967 (Palo Alto, Califórnia), antes de virar filme para TV e agora esse remake para o cinema, Die Welle, como tantas outras histórias que conhecemos, foi romanceada e virou livro.

O propósito do filme original (1981) era alertar os jovens sobre os perigos oferecidos pela onda nazi-fascista que começou no final da década de 1930 e que ainda existe nos dias atuais. A mensagem principal é a seguinte: “ independente do que somos e do que acreditamos, a verdade é que todos temos uma forte tendência ao totalitarismo. Sacrificamos a individualidade em nome da coletividade e, quando os interesses da coletividade tornam-se mais valiosos que o próprio ser humano, temos materializado diante de nós uma ditadura totalitarista, não importando qual a ideologia política ou filosófica por trás dela”.

E embora a história de ‘A Onda’ mostre tudo de uma forma bem sucinta e até mesmo caricata, não podemos fechar os olhos e dizer que isso não ocorre atualmente, diante de nossos olhos e debaixo de nossos narizes, porque ocorre e nem percebemos (e se percebemos, nos omitimos, porque é cômodo e seguro ficar em silêncio diante da maioria).
Impressionante constatar o quanto o alerta de “A Onda” permanece atual em um mundo onde mais do que nunca movimentos semelhantes surgem, articulam-se e propagam-se em diferentes tipos de mídia valendo-se da influência e do carisma de figuras toscas alçadas à categoria de líderes. Gente que do alto dos seus púlpitos virtuais e revestidos de uma aura pretensamente “professoral” fazem valer suas palavras à base de carteiradas acadêmicas e apelos constantes à meritocracia. Quando não fazem pior, valendo-se da força mesmo, seja ela política, jurídica ou mesmo bruta.

Como aparentemente a juventude (e não somente ela) é bem sensível a esse tipo de abordagem, ela torna-se campo fértil para esses “líderes” deitarem e rolarem, criando fatos que ilustram perfeitamente como os movimentos totalitaristas estão mais presentes na nossa vida do que gostaríamos.
Sobre a história em si, não encontro palavras melhores para resumi-la do que aquelas encontradas nesse site:

O filme “A onda” (The wave) tem início com o professor de história Burt Ross explicando aos seus alunos a atmosfera da Alemanha, em 1930, a ascensão e o genocídio nazista. Os questionamentos dos alunos levam o professor a realizar uma arriscada experiência pedagógica que consiste em reproduzir na sala de aula alguns clichês do nazismo: usariam o slogan “Poder, Disciplina e Superioridade”, um símbolo gráfico para representar “A onda”, etc.

O professor Ross se declara o líder do movimento da “onda”, exorta a disciplina e faz valer o poder superior do grupo sobre os indivíduos. Os estudantes o obedecem cegamente. A tímida recusa de um aluno o obriga a conviver com ameaças e exclusão do grupo. A escola inteira é envolvida no fanatismo d’A onda, até que um casal de alunos mais consciente alerta ao professor ter perdido o controle da experiência pedagógica que passou ao domínio da realidade cotidiana da comunidade escolar.

O desfecho do filme é dado pelo professor ao desmascarar a ideologia totalitária que sustenta o movimento d’A onda , denuncia aos estudantes o sumiço dos sujeitos críticos diante de poder carismático de um líder e do fanatismo por uma causa.

Embora o filme seja uma metáfora de como surgiu o nazi-fascismo e o poder de seus rituais, pode conscientizar os estudantes sobre o poder doutrinário dos movimentos ideológicos políticos ou religiosos. O uso de slogans, palavras de ordem e a adoração a um suposto “grande líder” se repetem na história da humanidade: aconteceu na Alemanha nazista, na Itália fascista, e também no chamado ‘socialismo real’ da União Soviética, principalmente no período stalinista, na China com a “revolução cultural” promovida por Mao Tsé Tung, na Argentina com Perón, etc. Ainda, recentemente, líderes neo-populistas da América Latina, valendo-se de um discurso tosco anti-americano, conseguem enganar uma parte da esquerda resistente a aprender com a história.

Obs:  Nesse link  pode-se assistir aos 46 minutos do filme original (em inglês) e compará-lo com o remake de  Dennis Gansel. Assista e tire suas próprias conclusões. Nota 8.