Vamos fazer um exercício mental. Imagine que, de repente, um grande sinal da existência divina fosse dado aos homens e Deus aparecesse diante de nós. Não diante de um, dois ou apenas um grupo específico, mas diante de toda humanidade. Como e de que forma ele apareceria não importa, imagine que ele se manifestasse em um local de grande movimentação e, durante um ano inteiro, todos tivessem acesso à divindade. Programas de TV, revistas, jornais e toda a mídia fariam matérias e entrevistas exclusivas com o Todo Poderoso e elas seriam traduzidas em todas as línguas. Imagine que durante esse fenômeno, cientistas famosos e renomados, céticos contumazes, ateus, crentes de todas as religiões, tivessem a oportunidade de conversar, tirar dúvidas e até mesmo confrontar a divindade. Imagine o impacto que isso teria em nossa sociedade: científico, filosófico, político, religioso... Imagine que diante de prova tão “material” da existência divina, todo o ceticismo se extinguisse, assim como todas as religiões e todos os questionamentos sobre como, onde, porque estamos aqui; imagine que essa experiência única desse lugar a somente uma única e onipresente fé, uma única religião, um único rito, um único povo, um mundo sem guerras, solidário, que essa experiência mudasse toda nossa sociedade de uma forma drástica, mas para melhor. Imagine que depois de um ano, Deus dissesse, “agora não me manifestarei tão fisicamente em seu universo, vocês já sabem porque estão aqui e o que quero de vocês, lembrem-se do que viveram nesses 365 dias e do que conversamos, passem essa experiência para seus filhos e netos, etc.”
Agora vamos fazer outro tipo de exercício. Vamos imaginar o que aconteceria com o mundo, depois que a divindade deixasse de ser uma presença “física” em nosso universo. Eu, por exemplo, tenho quase certeza que num primeiro momento, os homens, todos os homens perseverariam juntos, seguindo a nova revelação, mantendo a unidade, o mundo evoluiria, se tornaria mais coeso, talvez alguns ramos científicos entrassem em decadência, mas no geral, eu imagino que o mundo se tornaria melhor.
Porém, conhecendo a natureza humana como eu conheço, eu tenho quase certeza que a medida em que as gerações se sucedessem, começariam a aparecer dissidências, as dúvidas, os questionamentos. Surgiriam aqueles que, insatisfeitos como rumo e com a doutrina religiosa e científica estabelecida, logo começariam a questioná-las e, confrontados, não tardariam a se tornar dissidêntes, criando uma nova. E, quanto mais o tempo passasse, mais e mais dissidentes e pessoas duvidando dos fatos ocorridos no passado apareceriam e, mesmo diante de provas como vídeos e gravações, ainda assim passariam a duvidar se aquela experiência vivida por seus antepassados seria realmente algo que devesse ser levado à sério. No campo religioso, eu imagino que esse questionamento aconteceria ainda mais rápido. Sem dúvida não faltariam aqueles que atribuiriam à experiência a influências malignas, ou até mesmo, quem sabe, extraterrestres. Surgiriam teorias conspiratórias mil e, gradativamente, nesse mundo futuro hipotético, as coisas voltariam a ser como eram antes. Alguns homens acreditando, outros duvidando e, outros ainda, acreditando à sua maneira. Voltariam a brigar, a perseguir aqueles que refutam os dogmas estabelecidos, ou que simplesmente não querem seguí-los, etc.
Isso sem dúvida alguma aconteceria, porque o espírito humano é assim: Questionador, iconoclasta e rebelde. Portanto, eu, apesar de ser uma pessoa que acredita numa Entidade Superior, ou Deus, como muitos gostam de nomeá-lo, não vejo importância nenhuma em discussões onde se questiona a existência real desse ser. Só sei que para mim ele é real e é isso que importa. Ele é real, porque eu quero que seja assim e assim quero que seja. Ponto final. Eu SEI que ninguém pode provar que algo que está além do nosso universo existe, nem empiricamente, nem fisicamente, mas também, da mesma maneira, não pode provar que não existe.
E, mesmo se provasse a existência ou inexistência, isso não mudaria nada para muita gente, porque, como eu contei na história acima, esses argumentos, ou "provas" logo seriam questionadas, colocadas em dúvida, desacreditadas (até hoje existem pessoas que duvidam que o homem foi até a Lua e mostram “provas” de suas teorias).
O que muda nossa vida é a fé (ou falta dela). Simplesmente é a fé que faz diferença em nossas vidas.
E ter fé, não é como acreditam muitos ateus que eu conheço, sinônimo de certeza, mas de esperança. Se eu creio em Deus e creio nele sempre como uma influência positiva em minha vida (porque do contrário isso não faria sentido), eu creio porque quero crer; porque tenho esperança. Tem gente que não precisa de fé, para viver suas vidas, estão felizes e eu entendo e aceito isso. Porém, para aqueles que ainda acreditam que ter fé é ter certeza da existência divina, deixa eu falar que é exatamente o contrário. Não temos certeza de nada. Apenas acreditamos e temos esperança. Só isso. Não é algo sobrenatural, mas é exercício mental e, ao mesmo tempo espiritual: Ter fé é um exercício diário e, olha, eu sei o que estou falando. Tem que "malhar" para acreditar e malhar muito. Porque é muito mais fácil duvidar. Quando eu não acreditava, certamente eu levava uma vida menos complicada e, de certa forma, até mais feliz. Porém, um dia, eu decidi que faltava essa experiência na minha vida, a experiência de ter fé, de acreditar, mesmo quando algo, ou muita coisa, parece dizer exatamente o contrário.
Não creio em Deus, porque temo a morte. Medo da morte todo mundo tem e, nem por isso, todos saem por aí tornando-se exemplos pios e morais das religiões que dizem seguir, nem se convertem em exemplos morais, pelo contrário (embora existam casos de conversões verdadeiras). Por outro lado, o fato de você não crer em transcendência ou divindade, não faz de você melhor ou pior que eu, nem o contrário. Todo e qualquer argumento nesse sentido acaba se revelando falácia e isso é fato. Veja bem, eu creio, você não crê, ambos morreremos e, se você estiver certo, certamente você não desfrutará de seu triunfo; nem eu amargarei minha decepção. A morte física é o fim da existência física e em alguns casos, soa para alguns indivíduos como uma boa nova de libertação, não como uma sentença condenatória.
Só sei que para mim a vida é um jogo e crentes e ateus apostam em cartas opostas, blefam bastante durante a partida, mas o final do jogo, pelo menos nesse plano que vivemos, todos sabem, sejam crentes ou ateus: É a morte. Porém, existe a carta da fé, que só os crentes possuem. Ela é uma espécie de coringa e só vale se a partida continuar, depois desse primeiro jogo. Se o blefe dos crentes estiver certo, os ateus perdem definitivamente e amargarão o que estiver por vir. Se o blefe dos ateus ganhar o jogo, crentes e ateus perdem, porque aos ateus será retirada o prazer do seu triunfo. A morte física zera tudo e iguala todos, sábios e tolos, crentes e ateus, ignorantes e inteligentes, em um único rebanho de condenados. Game over.
A proposta do ateísmo me parece “pobre” demais. Eu não gosto de perder, eu jogo para ganhar e ganhar sempre. E estou aqui, troquei as cartas e agora blefo desavergonhadamente na esperança de existir algo mais, algo além desse mundo físico em que vivemos. Porque, me desculpe, mas não quero passar a eternidade, que é algo infinito, amargando a rejeição aquilo que eu deveria ter buscado e aceitado durante minha curta vida sobre a Terra, só isso. E depois, eu sou ambiciosa.
A perspectiva de existir, apenas por existir é pouco, é simplória, pobre demais. E eu detesto pobreza. Viver sessenta, oitenta, cem anos de vida farta e feliz é pouco, se isso satisfaz você, ouquei, eu respeito, mas eu quero mais, eu quero viver eternamente, eu quero transcender. Então, todos os dias, eu faço um exercício de fé, eu quero acreditar que transcendemos o plano físico, que há algo além e que esse algo que está além será bom, será melhor do que a maior felicidade que eu possa viver aqui.
Porém, ao contrário do que alguns amigos ateus podem imaginar, a fé não me trouxe certezas, me trouxe sim muitas dúvidas, mais até do que aquelas que eu tinha quando me julgava incrédula ou cética. Porém a fé me trouxe também a esperança, que se não for a própria fé travestida de sentimento, deve ser sua irmã ou sua mãe. E esperança, às vezes consola, outras vezes ilude, mas faz mais bem que mal.
Dizem que quando Joana D’Arc estava para ser amarrada a fogueira, sozinha, afastada dos amigos, humilhada físicamente de várias maneiras que não posso nem mencionar aqui nesse texto, tentaram convencê-la a abjurar de suas visões, renegando tudo o que acreditava e pelo qual havida lutado durante sua curta vida. Diziam para ela algo do tipo: “Sua tola, você está só, o que lhe restou?” e a heroína francesa, que futuramente seria santificada, respondeu com toda a dignidade que lhe restava: “Ainda resta a Esperança...”
É por isso que eu não debato crença religiosa, nem a falta delas. Acho toda e qualquer discussão nesse sentido improdutiva, com uso de técnicas argumentativas falaciosas que muitas vezes escapam ao entendimento de uma maiora e não levam ninguém a lugar algum. É como ter uma visão. Na realidade não importa a visão em si, mas como você reagirá a ela. Se um crente ouve “deus” falar com ele, acreditará ter recebido uma “revelação”; se for um ateu, acreditará sofrer de uma crise esquizofrênica. É isso. A questão não é provar, a questão é aceitar a prova e o que essa aceitação vai fazer em sua vida. Um ateu chega e diz, numa provocação primária: “onde está seu Deus agora? Prove que ele existe.” Pois eu afirmo, conheço gente que, mesmo se alguém dissesse, "ele está aqui, vou apresentá-lo" e assim o fizesse; o próximo questionamento seria: “Duvido que esse cara aí é Deus, cadê as credenciais dele?” Tudo muito sacal, desculpem, essa postura neo-ateísta de gente que não acredita em Deus, mas lê horóscopo e amuletos da sorte, não me parece sincera, mas ilusória.
Qualquer tipo de doutrinação é algo muito cansativo e improdutivo, porque tentar convencer alguém de algo, quanto a pessoa se recusa a aceitar, ou o contrário, tentar convencer alguém de que algo não existe, quando ela crer acreditar, não leva a lugar algum. Por isso, caros amigos, tudo o que posso dizer mais sobre esse assunto é: Senta aí, pegue suas cartas, um bom copo de bebida, acenda um cigarro e vamos jogar. Jogar no sentido de viver sua vida segundo sua fé, ou falta dela, porque, afinal de contas, todos sabemos como termina a primeira partida, mas nunca sabemos quanto tempo vai durar o jogo.
Vamos curtir e esperar se teremos revanche...Ou não.