quarta-feira, 20 de junho de 2012

Romance classe C

Murilo era um sujeito romântico. Curtia escrever poesias, fazer serenatas sob as janelas e chorar por amor... Era um moço muito sensível, sabe? Algumas meninas amavam aquilo, outras achavam ele meio afeminado, porém entre todas, uma em especial cativou seu coração: Maria Cândida. Ou Candinha, como era conhecida entre os amigos em comum.

Murilo conheceu Candinha num desses finais de semana prolongados na Praia Grande e imediatamente se apaixonou por sua beleza loura e pura. Namoraram durante 18 meses até o dia em que Candinha, cansada de tanta sensibilidade, poesias e pouco sexo, trocou Murilo por um Motoboy tatuado e bem-dotado.

Murilo surtou por dias! Bebeu, chorou, quebrou garrafas pelo quarto em acessos de fúria impotente, escreveu poesias, compôs uma canção falando sobre sua dor. Nada! Candinha nem se tocou. Ela estava maravilhada com a potência sexual do novo namorado e queria que Murilo se danasse. “A fila anda”, costumava dizer.
Um dia, Murilo decidiu castigar Candinha. Inspirado em Romeu & Julieta, cometeria suicídio e ela se sentiria muito mal por desprezá-lo para ficar com aquele pit-boy de subúrbio. O plano era tomar um frasco inteiro de remédios pra dormir na frente do apartamento da ingrata. Quando ela acordasse de manhã e se deparasse com seu corpo inerte barrando a porta, finalmente compreenderia quem era seu único e verdadeiro amor, mas então seria tarde e ela nunca mais se livraria do arrependimento por desprezá-lo.

Horas depois, no escuro hall do apartamento de Candinha, bêbado e trôpego, Murilo chegou, chorou, chamou por Candinha e finalmente cantou todas as músicas em italiano do Renato Russo. Finalizou o concerto romântico cantando Purple Rain, do Prince, e depois engoliu todos os comprimidos possíveis com o auxilio de um conhaque barato. Horror! Horror! Só um amor não correspondido explicaria tamanha vontade de se inflingir a tamanho sofrimento. Porém, o que Murilo não sabia é que na pressa de executar seu plano de vingança, ele havia trocado as três cartelas de um potente sonífero de sua mãe por três cartelas de lactopurga 3mg que sua avó usava quando sentia que os intestinos não estavam trabalhando muito bem.

Candinha? Ela nem ouviu a música, tampouco não encontrou de manhã o corpo de Murilo barrando sua porta. Estava ocupada demais desfrutando o feriadão na praia, tatuando o corpo na lojinha clandestina de um amigo do namorado e praticando todas as modalidades de sexo possíveis e imagináveis. No caminho de volta, com os seios esmagados pelo contato com as costas quentes do namorado, sentia-se destruída fisicamente, mas feliz. Quando voltou para casa, parou na farmácia para comprar Vagisil, fio dental e pastilhas para dor de garganta e soube por comentários de terceiros que um doido tentou suicídio no condomínio onde morava.
Aparentemente um mendigo doido foi encontrado por vizinhos, desmaiado e fedendo feito cano de esgoto entupido, sobre uma poça de vômito e fezes. E, por azar, logo no mesmo andar de seu apartamento. "Ih, credo, só espero que já tenham limpado tudo", pensou ela enquanto fazia uma careta de nojo e caminhava em direção a saída da farmácia.

Quanto ao Murilo, depois que levaram ele para o hospital e fizeram uma lavagem estomacal (embora ele já não tivesse mais nada no estômago),  ficou no soro até o efeito dos remédios purgativos passarem. Segundo sua avó comentou com as vizinhas, o jovem teve diárreia fortíssima por mais de dois dias, mas depois de receber alta do HC, estava feliz. Converteu-se e hoje é cantor de coral numa Igreja Evangélica. Namora uma enfermeira do hospital, uma moça chamada Adélia, aproximadamente 1,68 cm, simpática e dona de um buço mais espesso que suas sobrancelhas. Nobody is perfect, porque Carminha também não depilava a virilha.

Hoje Murilo está feliz, Adélia está feliz, Claudião e Candinha estão felizes, até a velhinha, avó de Murilo está feliz. Agora ela toma aquele iogurte que fazem propaganda na TV e o seu intestino funciona direitinho. Ela nem sente falta dos comprimidinhos de purgante. Ah, como a vida é boa...
Né?! :)

domingo, 3 de junho de 2012

FORA DO TOM

No mundo literário dedicado aquele nicho que os críticos classificam como “Literatura Cor-de-Rosa”, o nome que atualmente se destaca é o de Erika Leonard James, uma ex-gerente de produção de TV, casada e mãe de dois filhos adolescentes.

Inspirada (e apaixonada) pelos livros da Série Crepúsculo, Erika começou a escrever em meados de 2008 variações sobre a trama em sites de Fanfiction, lugares onde os fãs podem postar versões próprias de livros de sucesso favoritos. Um belo dia Erika saiu um pouco da rotina e começou a escrever aquilo que seria esboço do seu primeiro livro da Trilogia que agora faz sucesso entre seus fãs: Uma história semelhante aquelas que compramos em bancas de jornais e que fizeram o nome de escritoras renomadas no meio, como por exemplo, Barbara Cartland, considerada a rainha dos romances cor-de-rosa no seu país de origem: A Inglaterra. O diferencial entre os romances de Barbara Cartland e Erica Leonard James é que a história de Erika envolve sexo. Não apenas o sexo, digamos “convencional” que estamos acostumadas a ler em livros mais picantes estilo “Momentos Íntimos”, mas uma história onde protagonistas não tem medo de sair da rotina papai "meets" mamãe, para sessões de sexo picantes envolvendo Bondage e Sado-mazoquismo. Tudo com o consentimento dos protagonistas, lógico. :)

Sim, a heroína de Cinquenta Tons de Cinza, embora ingênua e virginal, como qualquer heroína de um romance de Barbara Cartland, não se assusta ao descobrir que seu “príncipe encantado”, além de bonito, rico e sexy, tem um apetite sexual e tendências sexuais além daquelas consideradas convencionais pelos mortais comuns. Digamos que estamos diante de um romance onde o protagonista não é nenhum Mr. Darcy e o termo “baunilha” fica no passado, porque, na luxuosa cobertura onde o “herói” de Cinquenta Tons de Cinza vive, num cômodo situado entre paredes decoradas com veludo e couro negro, podemos encontrar todo um aparato que deixaria os praticantes de bondage e S&M inspirados: cama gigante, almofadas macias, chicotes, coleiras, algemas e tudo mais que for necessário para a prática de sexo sadomasoquista. O diferencial entre esse romance e os outros é que em vez de proposta de casamento, o mocinho propõe a heroína que ela se torne sua escrava sexual e objeto de prazer. E ela... Aceita! Uma desconstrução do mito romântico da Cinderella (e outras princesas de contos de fada) que deixaria qualquer vovó de cabelos em pé.

Vendido inicialmente como E-book e tornando-se rapidamente um grande sucesso principalmente entre as mulheres, ávidas leitoras desse tipo de literatura (porém não somente elas, vale a pena frisar isso), não demorou muito para o livro atrair a atenção de Editoras Norte-americanas que passaram a disputar os direitos de publicação, inclusive os direitos de adaptação cinematográfica. Considerado um “fenômeno literário” por alguns críticos, o livro é criticado por outros que acusam a história de funcionar como manual erótico de auto-ajuda para donas de casa entediadas. O caso é que, gostando ou não, o livro é sucesso e já tornou-se uma trilogia. As seqüências encontram-se a disposição dos leitores na forma de e-books : “Cinquenta Tons Mais Escuros” e “Cinquenta Tons de Liberdade” (sic).

Não entendo o porquê de tanto auê em torno do tema. Aliás, até entendo, porque histórias envolvendo sexo, sempre fazem sucesso e todo mundo lê, mesmo aqueles que negam esse tipo de interesse literário, porém, quanto ao tema abordado por Cinquenta Tons de Cinza, particularmente acho bondage e sadomasoquismo práticas sexuais “boring”. Não me excitam, não me despertam interesse e essa história de "um tapinha não dói" não me agrada. Detesto pessoas agressivas, seja na cama ou fora dela, mas é compreensível que algumas pessoas sintam curiosidade e resolvam se “informar” , ler, e também “gostar” daquilo que descrevem para elas. Eu mesma, apesar do que afirmei no parágrafo anterior, não posso jurar que não lerei a trilogia ou não assistirei o filme.
Mulher é bicho curioso e, além do mais, a fantasia erótica de ser submisso (ou submissa) a um macho (fêmea) alfa ainda povoa a mente de muita gente, homens e mulheres, e é esse o nicho que "Cinquenta Tons de Cinza" pretende reconquistar.
Sim, reconquistar, já que livros  como "A História de O" (1954, Pauline Réage), um livro que também virou filme em 1975, já abordaram o tema no passado.

Aqui no Brasil, os direitos da obra foram recentemente adquiridos pela editora Intrínseca e o lançamento está previsto ainda para esse ano. Já a adaptação cinematográfica ainda pode demorar um pouco.