sábado, 30 de julho de 2011

Construção de um Mito: Morrer aos Vinte e Sete

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Florbela Espanca 


Amy Winehouse (*1983 - +2011)
Às vezes lemos algumas coisas na internet e ficamos pensando como as pessoas elaboram conceitos “lugares comum” para justificarem suas opiniões. Todos fazemos isso, inclusive eu e você, que está nesse momento lendo essa bagaça de blog, portanto isso não é novidade. Nem crítica. É mais um post sobre como depois de certo tempo a vida virtual parece uma eterna leitura de um amontoado de clichês. Quase, sei lá, um purgatório virtual. :)

A morte de Amy Winehouse, por exemplo, trouxe para a berlinda a discussão sobre o uso de drogas e o conceito de viver intensamente. Uso de drogas, liberação e descriminalização são assuntos chatos, que eu acho um pé no saco, mas o conceito de vida “intensa” me é simpático, então vou dar minha opinião – que não vale nem dois tostões – sobre o que penso a respeito e vou usar o que aconteceu com Miss Amy Winehouse para isso (com todo respeito devido à sua memória e ao luto da família).

Seguinte, eu e você estamos cientes, imagino, que boa parte de nossos conhecidos, de certa forma, já usaram ou estão prestes a usar algum tipo de droga na vida: legal ou ilegal. Cigarros, bebidas alcoólicas e remédios são considerados “drogas legais”, já as ilegais, todo mundo sabe mais ou menos quais são, então eu acho que não preciso falar sobre elas aqui. Já uma celebridade como Amy Winehouse usou, eu imagino, boa parte delas, mas pagou um preço alto por isso. Afinal de contas, morrer para mim é a pior coisa que pode acontecer a alguém. Se a vida de “drogadita” de Amy valeu a pena? Não sei, só a Amy poderia responder isso e ela já não está mais entre nós para dizer o que pensa sobre o assunto. Outros ídolos do Rock/Pop mundial também usaram drogas legais ou foram vítimas delas: Michael Jackson morreu por conta do uso de um anestésico potentíssimo; Marilyn Monroe morreu, porque tomou comprimidos para dormir, num suicídio que até hoje alimenta teorias da conspiração sobre sua morte; tantos outros famosos já morreram ou foram internados por conta de overdose no uso de algum tipo de droga legal ou ilegal, mas eu pergunto: E daí?

Quem somos nós para julgá-los, quem somos nós para endeusá-los ou justificá-los? Somos ninguém e, como liberal, eu acredito que nossos conceitos sobre o que é certo e errado podem, no máximo serem aplicados a nós mesmos e, quando muito, transmitidos aos nossos filhos.
Muita gente julgou Amy, muita gente condenou Amy, porém, pior que ficar “moralizando” em cima da morte dela é dar a essa morte uma importância maior que a merecida. Essa história de dizer que Amy viveu intensamente e por isso morreu aos vinte e sete anos é glamourizar o aspecto da vida dela que não deveria ser glamourizado. Não porque esse aspecto é "imoral" ou "errado", mas porque é irrelevante. Milhares (ou milhões, sei lá) de pessoas morrem por vários motivos em todas as fases da vida, outros vivem (ou sobrevivem) e é assim que o mundo funciona. Nossa percepção de certo e errado, vida intensa ou morte indigna são apenas conceitos, nada mais. E no meu conceito de “vida intensa” se apoia basicamente em uma coisa: o amor. Quem ama, vive intensamente e fim de papo.

Lógico que quem pode julgar se sua vida é intensa e satisfatória é somente você, então, não importa viver sete, quinze, vinte e sete ou cento e quarenta anos, o que importa é estar satisfeito, saciado, completo. Já eu norteio minha vida pelo amor e, para mim,o que importa é amar. Um amor como aquele que Florbela Espanca fala sobre, nesse poema que abre esse texto: Amar só por amar, amar a todos e ao mesmo tempo não amar ninguém (em especial), porque para mim, o sentindo da vida é esse, o amor. E no meu conceito de vida intensa, se Amy amou e soube se fazer amada, então sua vida, mesmo curta, valeu a pena. A fama meteórica, o talento, o uso de drogas, o álcool, a morte precoce aos vinte e sete anos foram apenas detalhes insignificantes (sob meu ponto de vista) de sua biografia, uma construção midiática para divulgar e vender um mito, mais um entre tantos.

Morrer aos vinte e sete não faz de ninguém um ser especial, um exemplo de vida “intensa” ou talento “destruidor”. Também não é a “chave de ouro” que encerra a história de alguém que soube escolher melhor que eu, você ou uma miríade de pessoas consideradas medíocres, seja porque nunca terão a oportunidade de ganhar o premio Grammy Awards 2011, ou seja porque estamos entre aqueles que consideram comer sem culpa um "pão quentinho com manteiga, acompanhado de café" uma das coisas mais deliciosas da vida (e é, acredite). Como eu já disse e volto a repetir, morrer jovem em consequência de uma overdose é apenas um detalhe biográfico, porque afinal de contas, se observarmos bem, encontraremos tantos outros mitos do Rock/Pop, muito mais famosos que Amy, que já beberam, fumaram e treparam mais que eu, você e Amy Winehouse juntas e estão por aí, sessentões, alguns deles ainda fazendo sucesso. "Morrer jovem em decorrência de uma vida intensa" é o escambau.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Aprendendo a amar

Ultimamente a única coisa que me tocou e que me motivou a abrir o Word para escrever um post foi a chocante a história do pai e do filho agredidos no interior de São Paulo por conta de uma manifestação homofóbica da parte de um grupo de animais. Sim, animais. Desculpando-me aqui com os defensores dos nossos amigos bichos e afirmando que não tenho intenção alguma de ofender os animais, que, lógico, são basicamente seres que agem movidos por instinto.

Já a criatura que praticou o crime, também parece agir por instinto, porém aqueles mais baixos, mais baixos até que o de qualquer animal que conheço, se é que se pode classificar a atitude de seres humanos desse naipe como instintiva. O caso é que o homem mais velho e seu filho, confundidos com um casal homossexual, foram barbaramente agredidos e o pai teve sua orelha decepada a dentadas por um dos agressores. Quer dizer, eu não sou "psica" (sic) para analisar a carga de significado por trás do ato, bastante erótico, de morder a orelha de outra pessoa do mesmo sexo até decepá-la, mas existe sim uma carga de desejo reprimido nesse tipo de agressão. A orelha foi cordada a dentadas, num ato de agressão muito íntimo que caracteriza a maioria dos crimes passionais; aqueles crimes que envolvem geralmente pessoas que de alguma forma nutrem sentimento por outras e extravasam esse sentimento de forma negativa e fatal. Qualquer estudioso de casos criminais pode explicar isso. Quem age friamente mata a distância, usa armas de fogo, veneno e até bombas (no caso de atentados terroristas), porém as pessoas que praticam crimes passionais usam armas brancas ou o próprio corpo como instrumento de agressão e é tudo feito por impulso, em um ato desengatilhado pelo extravasamento no conflito de fortes sentimentos.

Aprendi isso há muito tempo, quando ainda era quase adolescente: O contrário do amor é a indiferença. O ódio nada mais é que o amor disfarçado de vilão da novela das oito. Então, desculpem os amigos que dizem não existir homofobia no Brasil e desculpem também aqueles que dizem sequer existir o conceito de homofobia, mas isso me parece sim, um crime motivado pelo medo e pelo ódio aos homossexuais. A pessoa, ou pessoas, que agrediram aquele pai e filho, porque supunham que eram um casal gay, possuem sim uma carga de homoeroticidade reprimida (e nem sei se existe o termo “homoeroticidade”, porém que se foda o léxico) e a manifestação dessa homoeroticidade teve seu clímax na mordida na orelha.

Tem certas coisas que eu não consigo entender. Certamente, pela estupidez ser algo incognoscível. Pior é que o caso do ataque no interior de São Paulo nem ganhou tanto destaque na mídia, certamente porque a família das vítimas se sentiu constrangida com a exposição e preferiu abafar o caso, mas, enfim, quem sou eu para julgar os motivos pelos quais eles resolveram se resguardar? Talvez estejam simplesmente com medo. Eu, no lugar deles, estaria, porém isso não me impede de me identificar com o drama, não só dessa família como de todos os homossexuais que eu conheço. Ou não. E acho que também é o momento de agir, de cruzar a linha e marcar posição, porque agir assim não se trata de militância, mas de exercício de cidadania. Eu não sou militante LGBTXYZ e nem tenho nenhuma pretensão a sê-lo, mas acredito que há momentos na vida em que você, mesmo não sendo parte de nenhuma “minoria” historicamente discriminada, tem que lutar pelos direitos deles. Direitos básicos que são garantidos a todos, mas a eles, por conta de erros históricos e perpetuação da ignorância, são negados. Eu não sou negra, nem homossexual, vivo no país em que nasci, não sou gorda, não uso óculos nem aparelho nos dentes, porém isso não me isenta de me sentir agredida com ataques contra essas categorias. E não estou falando de uma agressão fruto de um erro de avaliação, como no caso de São João da Boa Vista, falo de uso do bom senso, da razão e dos bons sentimentos. Onde eles ficam no coração dessas pessoas? Que tipo de doença social é essa que divide a sociedade em guetos onde bandos se perseguem e se agridem? Quando vejo o sofrimento e a ameaça sendo imposto ao meu semelhante, isso também me machuca, mesmo que eu não seja vítima de qualquer tipo de intimidação ou ameaça naquele momento, mesmo que não participe daquele grupo.

Se identificar com o sofrimento alheio chama-se empatia, uma característica bem humana e preciosa, porém muito fácil de se perder. Que o digam os antigos romanos que iam ao Coliseu para assistir seus semelhantes virarem ração de Leões, ou o pessoal que praticou a caça às bruxas na idade média. Tirar a humanidade e os direitos básicos de outros ser humano é o primeiro passo para perder a empatia, por isso o perigo de se omitir, quando se é necessário agir, é muito sério. Os animais sociais, como pássaros e os símios até se confortam nos momentos de angústia, mas somente o ser humano consegue atribuir significado ao sofrimento e redimir-se através dele. O dia em que perdemos a empatia pelos nossos semelhantes, perderemos também nossa humanidade e daí a atacar os outros a dentadas é apenas um passo. 

E se você é do tipo que se cala e que pensa “não é da minha conta”, me desculpe, mas você pode está errado. Você pode até não ter mordido a orelha de ninguém na sua vida, mas de certa forma também tem culpa pelas dentadas que seus semelhantes levam por aí, mundo afora: Quem se omite também tem responsabilidade.
Exercite sua empatia. Sempre.

"Primeiro vieram buscar os judeus e eu não me incomodei, porque não era judeu. Depois levaram os comunistas e também não me importei, pois não era comunista. Levaram os liberais e também encolhi os ombros. Nunca fui liberal. Em seguida os católicos, mas eu era protestante. Quando me vieram buscar, já não havia ninguém para me defender."
Martin Niemoller

sábado, 16 de julho de 2011

Smells Like Teen Spirit

Dia 13 de Julho foi o Dia Mundial do Rock e eu passei o dia ouvindo o acústico do Nirvana e pensando como os ídolos do rock, pelo menos aqueles que mais se sobressaíram, tiveram vidas curtas e trágicas: Jim Morrison, Janis Joplin, Brian Jones, Jimmy Hendrix... Todos morreram jovens. O próprio Elvis, se a gente considerar bem, também morreu muito cedo. Ele tinha apenas quarenta e dois anos, caralho. :)

Daí você coloca um mp3 com uma música da Janis para tocar e não tem como não se emocionar com aquela voz, aquele sentimento, e então se conscientizar que aquela pessoa não existe mais, que o único resquício de sua presença nesse mundo é agora sua voz, imortalizada naquela música. E nesse exato momento eu sou tomada por aquele doce sentimento de nostalgia, sentindo saudades de um tempo que não volta mais, como se tivesse vivido aquilo, como se o passado fosse realmente melhor que o presente ou sei lá. Pensando de uma certa maneira, talvez até tenha sido, mas a certeza nunca é definitiva. Porém o sentimento de nostalgia persiste. Aquela vontade de ouvir de novo músicas que nunca foram tocadas e refrões que nunca foram cantados insiste em invandir minhas lembranças emocionais. Daí eu fico pensando: Será que mais alguém no mundo se sente assim como eu?

Às vezes eu me sinto a criatura mais estranha da face da Terra.