domingo, 27 de maio de 2012

Sozinha na noite

Lembrava-se perfeitamente da primeira vez que aconteceu. Estava sozinha. A mente vazia, os olhos fechados. Quebrando o silêncio do quarto, apenas o barulho monótono do tic-tac do relógio na parede. No resto da casa nada se ouvia, apenas o barulho suave de sua respiração atestava a presença de um ser vivo dentro daquela casa, daquele quarto.

Todos haviam saído e deixado ela ali, sozinha. Eles não se importavam, ela também. Deixou-se ficar inerte, deitada de bruços na cama. Pensou que, talvez, se ficasse apenas ouvindo o barulho suave do vento soprando lá fora, se dissolveria sobre aqueles lençóis brancos de linho, como se fosse uma tênue neblina se dissipando a luz da manhã. Será que já estava se dissolvendo? Esfregou as mãos sobre os braços gelados e riu baixinho. Lógico que não estava se dissolvendo. Pessoas não se dissolvem, apenas ficam pensando coisas sem sentido.

De repente, decidiu: Sairia naquele momento. De nada adiantaria ficar ali, reverenciando a memória de um amor abortado. Ainda pensando nisso, levantou-se da cama e tomou uma chuveirada rápida. Depois sentou frente ao espelho e passaram os cremes mais caros, os perfumes mais sofisticados pelo corpo. Do outro lado, uma garota pálida e de cabelos escuros a olhava, trágica.

Levantou-se, foi até o guarda roupa e vestiu uma lingerie de renda preta, meias de nylon modelo sete-oitavos e ligas. Por cima de tudo, colocou o vestido, também preto. Desses que toda mulher tem no guarda-roupa e informalmente chama de “pretinho básico”. Estava de luto, não estava? Luto por algo que foi sem nunca ter sido.

O “pretinho básico” em questão era um vestido de mangas curtas, sem decote. Deixava apenas as costas completamente expostas. Austero por quem o olhasse de frente, surpreendente ousado para quem olhasse de costas, o vestido era a verdadeira imagem da contestação à sobriedade insinuada pelo corte austero.

Ao perceber que as alças do sutiã ficariam aparentes naquele vestido, decidiu tirá-lo. Seios livres. Afinal de contas, o que importa? Eles eram pequenos e firmes e definitivamente não chamariam a atenção. Ou chamariam? Combinavam com o meu perfil pequeno e delicado.
Jogou a peça descartada sobre a cama e sentou-se novamente em frente ao espelho. Os cabelos, o que fazer com eles? Eram lisos e longos, castanho-escuros. Resolveu prendê-los num coque sóbrio, penteado típico de mulher casada. Nem sua avó usava coque nos dias atuais, mas mesmo assim, resolveu optar por esse tipo de penteado. A maquiagem... O que usar?Optou por usar apenas um batom clarinho.

Quando terminou e olhou-se no espelho, não se reconheceu e chorou. Quem era aquela ninfa triste e sombria, uma jovem de 22 anos, com corpo de boneca e rosto de Madonna? Sua pele clara brilhava em contraste com o vestido escuro e dos olhos castanho-escuros brotavam agonia líquida. A dor ainda estava ali e era imensa.
Apagou a luz e desceu para a rua. Na calçada, sentiu uma umidade no rosto. Chorava; os cabelos muito finos, soltos do coque, voavam agora ao sabor do vento. Uma brilhante nuvem de fibras de queratina flutuando ao redor do seu rosto.

Acenou para os carros que passavam. Queria um táxi? Uma carona? Queria dar para o primeiro que aparecesse? Queria redenção? Não sabia. Um carro parou. Ela entrou e antes o motorista falasse alguma coisa, disse: “Me tira daqui, por favor. Depois a gente conversa...”

Minutos depois o carro partiu cantando os pneus. As luzes das lanternas traseiras não demoraram a se misturar com as luzes dos outros carros, transformando-se apenas em dois pontos vermelhos entre tantos outros. Nesse momento, uma fina garoa começou a cair, tornado a paisagem borrada e difusa. Ali, na rua, no meio de tantos anônimos e pontos de luz desfocados pelas gotas de chuva, finalmente ela se dissolveria, perdendo a identidade e deixando de ser quem era.

2 comentários :

Carol disse...

Muito lindo. bj

Ollie disse...

Que bom que gostou. Um beijo, linda. :)