Os homens já nascem com medo, coitados, chorando aterrorizados ao serem retirados do ventre materno para um mundo que é ao mesmo tempo belo e aterrorizante. Daí para frente, a existência torna-se uma sucessão caótica de acontecimentos assustadores contra o qual lutam durante toda vida.
Quando criança o homem teme o escuro e os monstros imaginários que se escondem debaixo da cama. Crescido, o homem continua temendo, porque não conhece ou, porque não entende ou, porque, talvez, não ame verdadeiramente.
O homem teme amar acima de todas as coisas e se entrega uma orgia de prazeres venais para fugir do medo de sentir medo. O homem tem medo de ser esquecido e por isso passa a vida inteira em busca de reconhecimento, mesmo que seja póstumo e, por medo, constrói monumentos maravilhosos e dedica cada minuto do seu dia à busca de reconhecimento, qualquer um, mesmo que seja efêmero.
Por medo o homem mata, por medo o homem impõe a força sua vontade sobre outras criaturas, por medo o homem faz guerras e destrói, por medo o homem erra incessantemente. Apesar que o medo de errar também entra no rol dos terrores que atormentam o homem.
O homem constrói catedrais e templos aos deuses, mas se mantém longe desses monumentos, temendo que sejam armadilhas; o homem desperdiça seu curto tempo, venerando ou desprezando de longe o desconhecido, por medo; o homem teme se engajar a uma causa, qualquer uma; ou, por medo, se engaja demais, deturpando o que deveria ser belo e admirável.
O homem teme se olhar no espelho e ver refletido ali sua vergonha; o homem teme olhar para dentro de si e descobrir a existência um abismo tão profundo e escuro, que o próprio infinito parece pequeno diante de tal vazio.
O homem tem medo de sentir fome, de ficar doente , de ser abandonado e, talvez por isso, busca todo tempo acumular riquezas para vencer o medo da indigência. Porém, quando percebe, se encontra à mercê do medo de perder aquilo que conquistou.
O homem teme a solidão e, encontrando um amigo, teme que esse amigo lhe roube aquilo que considera mais precioso.
O homem tem medo de amar e, amando, tem medo de perder e, perdendo, tem medo de amar de novo. O homem teme o ciclo dos dias que lhe consome o tempo e lhe rouba a vida. O homem geralmente teme a morte e, se não a teme, teme a desonra do fim ignomioso . O homem teme...
O que tem sido a vida do homem, a nossa vida, senão uma sucessão de temores?
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