sábado, 4 de setembro de 2010

Lebensborn : Uma história de Guerra; Racismo; Eugenia e Bullying.

Sabemos que a política racial nazista foi uma das coisas mais horrendas forjadas pela mente humana, porém , embora no quesito pensar e fazer merda os nazistas fossem excelentes, a grande verdade é que eles não eram tão originais assim, pois muitas das idéias colocadas em prática pelo governo nazi-alemão foram baseadas em teorias científicas largamente difundidas e defendidas por “estudiosos” de vários países – entre eles os ditos “países aliados” - durante o final do século XIX e início do século XX.

E muitas dessas teorias se sustentavam – pasmem - exatamente na teoria darwiniana sobre a Seleção Natural e a Origem das Espécies. Assim, não faltaram mentes brilhantes, algumas delas gozando de renome no meio científico (Mendel, Malthus, Francis Galton), demonstrando simpatias, senão defendendo publicamente, no caso de Galton, a implantação de uma política de eugenia para “aprimorar” a raça humana.
Apenas a repugnância moral e a falta de coragem política para enfrentar uma sociedade que não via com bons olhos a interferência científica em algo que, pela crença geral, deveria ser decidido pelas leis naturais (ou por Deus), continuaram a impedir que os argumentos pró-eugenia se transformassem em ações efetivas de purificação da raça humana.
Quebrar esse tabu, ou cruzar essa fronteira, coube ao governo nazista, o qual nunca teve escrúpulos morais e menos ainda éticos para colocar tais idéias científicas em prática. Embora nos EUA, país da Ku Klux Klan e lugar onde o conceito “raça” tem, sem dúvida alguma, mais importância que em qualquer outro lugar do mundo - inclusive nos dias atuais-, já existiam práticas de esterilização em massa de pessoas em quase a metade ( vinte e quatro) dos cinqüenta estados norte-americanos. Logicamente a maioria das vítimas desses procedimentos eram pobres (geralmente negros ou mestiços) trancados em instituições psiquiátricas. Desnecessário dizer que essas políticas de purificação racial caíram totalmente em desuso no Ocidente depois do pesadelo nazista, mas não deixa de ser engraçado como nos livros de história essas páginas foram cobertas convenientemente com um providencial manto de silêncio....

Naquela época, no resto do mundo, as coisas não eram muito diferentes dos EUA, embora o tema eugenia se restringisse mais a discussão teórica do que prática. Em 1930, quase às portas da deflagração da Segunda Grande Guerra, pessoas como o “eugenista” (sim existia esse termo e eles eram respeitados no meio científico) inglês chamado Wicksteed Armstrong escreveu e publicou um livro chamado “The Survival of the Unfittest”, no qual defendia “a diminuição da fertilidade perigosa dos ineptos através da segregação, esterilização e – adivinha?- “câmara letal”. Portanto, não duvide, qualquer semelhança entre o que defendiam esses “eugenistas” e a política de “purificação racial ariana” implantada pelos nazistas não é mera coincidência.

Porém, os nazistas sabiam que a política de purificação e criação de uma raça ariana não dependia somente de colocar em prática a esterilização e o extermínio dos indivíduos geneticamente impuros, era necessário que também fosse estimulado o nascimento de novos seres humanos, descendentes exclusivos de matrizes arianas geneticamente selecionadas. E é nesse momento que surge o projeto Lebensborn, criado em 12 de dezembro de 1935 por Heinrich Himmler e surgido em parte da necessidade do governo nazista em combater o decrescente índice de natalidade do povo alemão, estimulando assim a criação de famílias mais numerosas e desestimulando o aborto.

A idéia inicial do projeto era proporcionar incentivos aos alemães, especialmente agentes das SS, a terem mais filhos suprindo o país com indivíduos de raça ariana pura. Assim, dentro do projeto Lebensborn, as mulheres dos oficiais da SS recebiam incentivos do Governo para serem mães e dispunham de toda uma rede de assistência beneficente para isso, como por exemplo maternidades com enfermeiras e uma ajuda de custo para o sustento de seus pimpolhos. Imagino que era um tipo de “bolsa família” alemão, só que mais ambicioso e visando outros fins que não o bem estar da população. Porém, a medida que a guerra estendeu-se para outros países e os alemães submeteram outros povos ao jugo nazista, o projeto Lebensborn passou a aceitar e cuidar de filhos de mães solteiras e amantes de oficiais da SS, desde que ficasse comprovado que tanto o pai, quanto a mãe eram arianos puros, não importando a nacionalidade. Também começaram a seqüestrar e selecionar entre as crianças dos países ocupados, aquelas que apresentavam características arianas. Se a criança fosse aprovada como um ente de raça pura, ela era enviada para adoção de uma família cadastrada no projeto, se fosse recusada, seguia para os campos de concentração e extermínio, onde aquelas que não morriam durante o transporte eram sacrificadas em câmaras de gás ou usadas em experimentos “científicos” como aqueles praticados pelo famigerado Dr. Josef Mengele.

Milhares de poloneses tiveram seus filhos seqüestrados, selecionados e enviados para campos de extermínio. Quanto aos filhos de mulheres de países ocupados com oficiais da SS, já durante a guerra estas crianças e suas mães despertaram o ódio e a rejeição do povo e do governo exilados no exterior. Através de rádios como a BBC de Londres, o governo refugiado dos países ocupados advertiam às mulheres que se deitavam e tinham filhos com os alemães que as coisas poderiam ficar muito desagradáveis para elas e seus filhos quando a guerra acabasse e os nazistas fossem derrotados. Ameaças que após a derrota do exército alemão foram efetivamente colocadas em prática da forma mais cruel possível, especialmente contra as crianças lebensborn.

Depois da guerra, elas foram submetidas aos mais diversos abusos em nome da vingança: aquelas que não tinham mães ou foram por elas abandonadas, foram internadas em orfanatos e clínicas para doentes mentais – algumas desenvolviam autismo, porque eram criadas sem nenhum contato emocional com outro ser humano- , ou então, mesmo sãs, consideradas doentes mentais por puro preconceito e passavam a infância, adolescência e parte da juventude presas em clínicas de loucos.
Já aquelas que viviam com as mães sofriam todos os tipos de abusos conhecidos na escola, na rua, na cidade, aquilo que atualmente aprendemos a classificar como bullying: Apanhavam, eram violadas física e emocionalmente e, para piorar, as suas mães, chamadas gentilmente pelo povo de “putas nazistas”, não conseguiam emprego ou eram expulsas pela família, vendo-se obrigadas a se prostituir para buscar sustento próprio e dos filhos. Note que o único crime dessas mulheres foi se deitar (nem sempre por vontade própria) e engravidar de um soldado alemão. Fora esse detalhe, essas mulheres não tinham atentado contra nenhuma lei, mas com a conivência do governo foram abandonadas à ânsia de vingança do povo que encontrou nelas e nessas crianças, consideradas"ranhos nazistas" seu alvo perfeito.

No pós guerra, relatos de maus tratos contra crianças que tiveram essa origem são inúmeros e assombrosos. Ex-internos do orfanato de Bergen, por exemplo, relatam que foram obrigados a desfilar pelas ruas da cidade recebendo golpes de açoite e cusparadas. Outra testemunha relata que foi colocado numa pocilga junto com outros meninos e lá passou dois dias inteiros vivendo como se fosse um porco. Há histórias escabrosas de crianças mutiladas com ácido para tirar delas o “cheiro de nazista” do corpo.

Em casos melhores documentados, como o de Paul Hansen, podemos ter idéia do que exatamente aconteceu com essas crianças. Apesar de não sofrer de nenhum distúrbio mental, Paul foi confinado em um hospital psiquiátrico durante 20 anos e quando saiu de lá já havia perdido todas as oportunidades de educação normais para uma pessoa de sua idade. Ele fez parte do primeiro grupo de lebensborn que processaram o governo norueguês, no início desse século (XXI).
A norueguesa Gerd Fleischer, foi outra que lutou para que os direitos dos lebensborn fossem reconhecidos em seu país. Por conta do preconceito e dos espancamentos que sofria do padrasto com a conivência da mãe, ela se viu obrigada a fugir de casa aos treze anos e viveu por muito tempo como sem-teto. Deixou o país aos dezoito e só voltou quase vinte anos depois, quando conseguiu refazer sua vida e resolveu voltar ao seu país e lutar pelos direitos de cidadã que lhe foram negados devido ao seu nascimento. Durante esse período Gerd encontrou e processou o pai alemão, que se negou a reconhecê-la como filha, obrigando-o a assumir a paternidade. No país onde nasceu criou uma organização para defender o direito da geração lebensborn e da Justiça para todos.

Outro testemunho interessante sobre a geração lebensborn é o do alemão, Olaf Sinner-Schmedermann. Boa parte do que eu relatei nesse post, encontrei no relato dele. Homossexual e ex-bailarino, filho legítimo de pais alemães, ele confessa ainda sentir vergonha de sua origem, mas orgulho de ser hoje tudo o que os nazistas desprezavam e tentaram destruir. Segundo ele, sua mãe, uma mulher que compactuou com os ideais nazistas até a morte, ao descobri-lo homossexual aos 16 anos de idade, afirmou que se vivessem na época da Alemanha nazista o seu destino seria a câmara de gás. O pai de Olaf era um soldado da SS e foi realmente casado com sua mãe, mas ela abandonou o marido assim que Olaf nasceu e foi viver com a família. Por conta disso, ele nunca se relacionou com o pai, o qual viu apenas algumas vezes durante a infância. A única vez que foi visitá-lo, aos vinte anos, encontrou-o em estado lastimável, chegando a tropeçar em seu corpo embriagado na rua. O pai de Olaf morreu devido ao consumo excessivo de drogas e bebidas aos 63 anos de idade.

Na época que deu esse depoimento, Olaf contava com 43 anos de idade, hoje ele teria mais de 68 e nem sei se ele ainda vive ou  morreu. Tudo o que sei é que a maioria dos homens e mulheres da geração “lebensborn” contam hoje com mais ou menos a mesma idade e só agora sua história começou a ser conhecida pelo público, inclusive na Alemanha.

Vários lebensborn vítimas da perseguição chegaram a entrar com denúncias por maus tratos no Tribunal de Direitos Humanos de Estrasburgo, mas não tiveram seus pedidos aceitos sob a alegação de que tais fatos aconteceram há mais de 20 anos e prescreveram. Porém os advogados contra-argumentam que não se deve levar em conta apenas os fatos acontecidos durante a infância, mas também aqueles referentes aos anos posteriores à guerra, já que as conseqüências se prolongaram durante uma vida inteira.

Curiosidade: A talentosa Frida Lyngstad, ex-integrante do extinto grupo ABBA foi uma criança lebensborn.




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