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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Culinária True Blood

A série soft-porn-terrir True Blood é uma das mais bem recebidas pela crítica e pelo público.
Pessoalmente, já gostei mais, hoje eu confesso que tomei nojo das histórias de vampirinhos modernos from Hollywood e só assisto de vez em quando apenas para descobrir se a Anna Paquin resolveu ir ao dentista e corrigir aquele diastema horroroso que ela tem nos dentes da frente.

"Ok, Bill, quantas vezes eu falei que a
comida do Merlotte's  me dá gases?
 Agora aguenta..."
Assim, quando ouvi falar sobre o lançamento de um livro de receitas inspirado na série, imediatamente relembrei do episódio onde o vampirão Rei, ou delegado, sei lá, fazia um jantar onde o vampiro Bill e outros convivas vampiros, entre eles o vampiro gostosão, Eric, o loiro, degustaram pratos feitos a base de sangue humano; enquanto o esposo mor do Rei Vampiro (sim, vampiros são modernos e casam-se entre vampiros do mesmo sexo), fazia questão de anunciar e descrever cada prato: "sopa de sangue fresco, retirada de um doador que se alimentou durante um mês apenas de bergamota italiana; reparem nas notas cítricas e na ausência de adrenalina gerada pelo estresse, já que o doador do sangue fez isso exponteneamente...".

Puta que pariu, que nojo, heim? Confesso que tenho horror a qualquer prato servido mal passado ou feito com sangue, assim, nem se eu fosse uma vampira neófita, radicada em  um reality-show apresentado pelo Zeca Camargo, eu tomaria uma sopa dessas.  :)

Porém o tal livro de receitas é aparentemente algo menos tétrico e nojento que o festim acima descrito. Baseados na cozinha sulista, as receitas são inspiradas nos pratos e drinks servidos no bar Merlotte, onde trabalha Sookie. Tudo a base de muita fritura, molho de tomate, bacon e gordura, do jeito que um bom norte-americano gosta. Pelo que vi ele tem receita de "Blood Mary", que eu adoro. Acho meio clichê uma receita desse drink numa série sobre vampiros, mas ok, tá valendo.

Agora, será que eles tem receita de Turducken? O lendário Turducken é a versão sulista norte-americana da nossa feijoada (*), só que bem mais difícil de fazer. O preparo é elaboradíssimo e requer nível de conhecimento e domínio da arte de cozinhar "profissional". É, todavia, um prato delicioso, mas nenhum Turducken é completo se não vier acompanhado de remédio para a digestão e duas ambulâncias para o caso dos convivas sofrerem uma indigestão com o "peso" da comida no estômago.  :)

Nada de sopa de sangue c/ bergamota por aqui...


 Mesmo assim é  (bem, mas ) bem melhor que se alimentar do sangue de alguém que ficou um mês chupando apenas bergamota. Nhé!
__________
(*) Atenção: Não vai feijão no turducken. A comparação com a feijoada é apenas no que diz respeito ao "peso" calórico do prato.

domingo, 3 de junho de 2012

FORA DO TOM

No mundo literário dedicado aquele nicho que os críticos classificam como “Literatura Cor-de-Rosa”, o nome que atualmente se destaca é o de Erika Leonard James, uma ex-gerente de produção de TV, casada e mãe de dois filhos adolescentes.

Inspirada (e apaixonada) pelos livros da Série Crepúsculo, Erika começou a escrever em meados de 2008 variações sobre a trama em sites de Fanfiction, lugares onde os fãs podem postar versões próprias de livros de sucesso favoritos. Um belo dia Erika saiu um pouco da rotina e começou a escrever aquilo que seria esboço do seu primeiro livro da Trilogia que agora faz sucesso entre seus fãs: Uma história semelhante aquelas que compramos em bancas de jornais e que fizeram o nome de escritoras renomadas no meio, como por exemplo, Barbara Cartland, considerada a rainha dos romances cor-de-rosa no seu país de origem: A Inglaterra. O diferencial entre os romances de Barbara Cartland e Erica Leonard James é que a história de Erika envolve sexo. Não apenas o sexo, digamos “convencional” que estamos acostumadas a ler em livros mais picantes estilo “Momentos Íntimos”, mas uma história onde protagonistas não tem medo de sair da rotina papai "meets" mamãe, para sessões de sexo picantes envolvendo Bondage e Sado-mazoquismo. Tudo com o consentimento dos protagonistas, lógico. :)

Sim, a heroína de Cinquenta Tons de Cinza, embora ingênua e virginal, como qualquer heroína de um romance de Barbara Cartland, não se assusta ao descobrir que seu “príncipe encantado”, além de bonito, rico e sexy, tem um apetite sexual e tendências sexuais além daquelas consideradas convencionais pelos mortais comuns. Digamos que estamos diante de um romance onde o protagonista não é nenhum Mr. Darcy e o termo “baunilha” fica no passado, porque, na luxuosa cobertura onde o “herói” de Cinquenta Tons de Cinza vive, num cômodo situado entre paredes decoradas com veludo e couro negro, podemos encontrar todo um aparato que deixaria os praticantes de bondage e S&M inspirados: cama gigante, almofadas macias, chicotes, coleiras, algemas e tudo mais que for necessário para a prática de sexo sadomasoquista. O diferencial entre esse romance e os outros é que em vez de proposta de casamento, o mocinho propõe a heroína que ela se torne sua escrava sexual e objeto de prazer. E ela... Aceita! Uma desconstrução do mito romântico da Cinderella (e outras princesas de contos de fada) que deixaria qualquer vovó de cabelos em pé.

Vendido inicialmente como E-book e tornando-se rapidamente um grande sucesso principalmente entre as mulheres, ávidas leitoras desse tipo de literatura (porém não somente elas, vale a pena frisar isso), não demorou muito para o livro atrair a atenção de Editoras Norte-americanas que passaram a disputar os direitos de publicação, inclusive os direitos de adaptação cinematográfica. Considerado um “fenômeno literário” por alguns críticos, o livro é criticado por outros que acusam a história de funcionar como manual erótico de auto-ajuda para donas de casa entediadas. O caso é que, gostando ou não, o livro é sucesso e já tornou-se uma trilogia. As seqüências encontram-se a disposição dos leitores na forma de e-books : “Cinquenta Tons Mais Escuros” e “Cinquenta Tons de Liberdade” (sic).

Não entendo o porquê de tanto auê em torno do tema. Aliás, até entendo, porque histórias envolvendo sexo, sempre fazem sucesso e todo mundo lê, mesmo aqueles que negam esse tipo de interesse literário, porém, quanto ao tema abordado por Cinquenta Tons de Cinza, particularmente acho bondage e sadomasoquismo práticas sexuais “boring”. Não me excitam, não me despertam interesse e essa história de "um tapinha não dói" não me agrada. Detesto pessoas agressivas, seja na cama ou fora dela, mas é compreensível que algumas pessoas sintam curiosidade e resolvam se “informar” , ler, e também “gostar” daquilo que descrevem para elas. Eu mesma, apesar do que afirmei no parágrafo anterior, não posso jurar que não lerei a trilogia ou não assistirei o filme.
Mulher é bicho curioso e, além do mais, a fantasia erótica de ser submisso (ou submissa) a um macho (fêmea) alfa ainda povoa a mente de muita gente, homens e mulheres, e é esse o nicho que "Cinquenta Tons de Cinza" pretende reconquistar.
Sim, reconquistar, já que livros  como "A História de O" (1954, Pauline Réage), um livro que também virou filme em 1975, já abordaram o tema no passado.

Aqui no Brasil, os direitos da obra foram recentemente adquiridos pela editora Intrínseca e o lançamento está previsto ainda para esse ano. Já a adaptação cinematográfica ainda pode demorar um pouco.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Vampirella

Que fã de quadrinhos nunca ouviu falar de Vampirella, a sexy heroína vampira criada por Forrest J. Acjerman em 1969 para revistas especializadas em terror, como a Creepy e a Eerie (editora Warren)?

Desde sua primeira aparição nas páginas dessas revistas, Vampirella, uma morena de curvas sensuais, longos cabelos negros e branquíssimos dentes pontiagudos, chamou a atenção e conquistou os corações de milhares de adolescentes, ganhando posteriormente, devido ao sucesso da personagem, uma revista própria.

Inicialmente, tal qual o mundialmente conhecido Superman, Vampirella também tinha origem extraterrestre: Originária de Drakulon, um planeta que orbitava dois sóis, Vampirella era em seu planeta apenas o subproduto evolutivo de um ambiente onde os rios fluíam sangue, em vez de água. Quando viajou para a Terra, fugindo de uma catástrofe climática que secou toda fonte de "água" de seu mundo, Vampirella descobriu que aqui, o líquido que em seu planeta fluía nos rios também fluía nas veias dos Terráqueos e isso a forçou a agir como os vampiros míticos para sobreviver. Porém, nossa heroína "vampira" apenas nutria-se do sangue dos criminosos e vilões, algo que, imagino, conquistou a simpatia dos leitores, cansados de heróis bonzinhos que nunca, ou quase nunca, matavam seus adversários malvados. Outra curiosidade a respeito da personagem é a origem de seu nome, claramente inspirado na personagem de ficção científica estrelada por Jane Fonda no cinema, Barbarella.

Outro ponto em comum entre as duas: Ambas são a personificação de mulheres sensuais, vestidas com roupas colantes e usando a sensualidade para seduzir e derrotar os vilões, com o diferencial que Barbarella era mais ninfomaníaca e Vampirella mais... Fatal.

Aqui fica uma curiosidade sobre Vampirella que envolve nosso país: Segundo o próprio Forrest J. Ackerman a inspiração para criar a bela morena vampira, surgiu durante uma rápida visita que ele fez ao Brasil, onde, durante um vôo de conexão, a beleza e a sensualidade das mulheres nativas, chamou sua atenção e frutificou na forma da personagem que viria a seduzir homens, virtuais e reais, ao redor do mundo.

Desde sua criação, Vampirella também fez vez aparições especiais em revistas e nichos de outros super-heróis, como Jack Estacado (Darkness) e Batman onde, na cidade de Gothan City, Vampirella envolveu-se em combate uma mulher gato chamada Pantha.

Posteriormente, como quase todo personagem de quadrinhos, Vampirella sofreu uma remodelação de sua origem e nessa nova versão, descobriu-se que Vampirella é na realidade uma verdadeira vampira, filha predileta de Lilith, aquela que segundo os mitos judaicos foi a primeira mulher de Adão e, posteriormente sua queda e expulsão do paraíso tornou-se a mãe e todos os vampiros e monstros que atormentam a vida humana. Assim, todas as memórias de Vampirella a respeito de Drakulon eram na realidade memórias falsas plantadas por sua mãe (ou por seus irmãos vampiros) na época em que ela foi enviada para a Terra imaginando ter chegado até aqui viajando numa nave espacial. Nessa nova versão descobriu-se que o verdadeiro objetivo de Vampirella na Terra não era salvar a vida de um planeta moribundo, mas purgar os pecados de sua mãe mítica junto ao Criador, exterminando os vampiros maus que ainda vagavam entre os homens, além de combater, nas horas vagas, outros seres enviados do Inferno. Vampirella foi, portanto uma espécie de Buffy misturado com Blade, uma desbravadora numa época em que quadrinhos de Terror chegaram a ser proibidos em alguns lugares dos Estados Unidos e Grã Bretanha.



Pena que até hoje ninguém resolveu fazer um filme (ou série) com uma personagem tão complexa. Aliás, se não me engano, até fizeram um filme em 1996, mas ele era tão ruim que não emplacou. Uma pena.

domingo, 5 de junho de 2011

Curiosidades sobre a vida dos astros e estrelas - I.

Lendo um desses livros “bagaceiros” que contam as venturas e desventuras da vida sexual dos astros, achei interessante como as atrizes Loretta Young  e Lupe Velez enfrentaram o possível escândalo de uma gravidez fora do casamento.

Loretta Young (1912-2000)
Durante a filmagem de “The Call of the Wild”( O Grito das Selvas, 1935), Loretta viveu uma tórrida história de amor com Clark Gable (1901-1960). Até aí morreu Neves, porque atores e atrizes viviam se envolvendo sexual e sentimentalmente durante as filmagens, porém o envolvimento dos dois não foi nada discreto e diariamente saiam notas nos jornais de fofoca garantindo que Gable estava louco de amor e desejo por Loretta e pediria o divórcio para se casar com ela assim que as filmagens chegassem ao fim. Se as notas eram plantadas por agentes pagos pela própria atriz, ninguém sabe, porém as filmagens acabaram, o romance chegou ao fim e casamento que é bom, nem sinal deu. Abafa o caso. De repente, a Fox anuncia que Loretta tiraria uns meses de descanso por questões de saúde e, anos depois, em 1937, Loretta divulgou ao grande público a adoção de uma menina de dois anos chamada Judy, uma bela garotinha que ao se tornar mais velha, revelaria uma inegável semelhança física com a mãe adotiva. Nem Gable, nem Loretta admitiram em momento algum que Judy era sua filha natural, porém como naquela época não existia, ou não era tão popularizado o exame de DNA, a história ficou apenas na especulação. Gable e a atriz levaram a verdade para o túmulo.

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Lupe Velez (1908-1944)
Quanto a Lupe Velez ou María Guadalupe Vélez de Villalobos, a história foi completamente diferente. Essa atriz mexicana de notável beleza fez sucesso em Hollywood em meados de 1924 e foi casada com nomes como Johnny Weissmüller (1933) e Arturo de Córdova(1938). O primeiro ficou conhecido do público por interpretar Tarzan na grande tela, o segundo foi um ator relativamente desconhecido.
O interessante da vida de Lupe é que ela parecia ser do tipo que adorava um dramalhão. De preferência mexicano, afinal de contas ela era mexicana nata. Porém, não era nada burra: Quando o interesse da novidade começou a arrefecer nos EUA e e a atriz entrou em decadência, a saída para fugir das dívidas foi viajar para o México e filmar por lá. O resultado foi o filme “Naná” (1944), o qual conseguiu trazer Lupe de volta às luzes da ribalta. O problema é que Lupe tinha ou desenvolveu com a idade um “dedo podre” para homem. Acabou envolvendo-se com um cafajeste bonitão e bom de cama chamado Harald Ramond que abusava dela e ela adorava . Quando a atriz ficou grávida, ele, como todo rato de sarjeta, nem ligou e a deixou sozinha com o problema. Católica, mas nem um pouco coerente, Lupe negou-se a fazer um aborto, mas planejou detalhadamente seu suicídio: Um belo dia vestiu-se sofisticadamente e convidou duas amigas para um suntuoso jantar mexicano, regado a muita tequila e molho picante. No fim da noite, depois de comer e beber feito uma bacante, Lupe voltou para o quarto iluminado por luz de velas e decorado com belíssimas flores exóticas, onde engoliu uma bela quantidade de pílulas para dormir. Seria chique, seria uma saída digna de uma estrela, porém seus planos não saíram com esperados – ela teve fortíssimas ânsias de vômito por conta da bebida e do tempero picante – e a pobre Lupe encontrou seu fim com a cabeça enfiada no vaso sanitário. Havia se afogado no próprio vômito. (*)
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(*) Há ceticismo em relação à essa versão.  Sua secretária e amiga, Beulah Kinder, afirma que encontrou a atriz morta e deitada pacificamente na cama, como se estivesse descansando. Outro questionamento é sobre Vélez ter se suicidado por vergonha de carregar um filho ilegítimo. Isso não é improvável, mas deve-se levar em conta que durante toda sua vida, ela  ficou conhecida por desafiar as convenções morais de sua época, sendo pouco provável que ela não soubesse lidar com uma gravidez indesejada. O mais provável é que ela sofria de transtorno bipolar, doença que se não for tratada pode levar a pessoa a práticas de suicídio. O que pode ter sido o caso, vai saber.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Ainda no clima da Páscoa...

Fiquei meio pasmada quando soube nesse fim de semana que o ator, Jeffrey Hunter (*1926; +1969),  que interpretou Jesus Cristo no clássico da Warner, "Rei dos Reis", teve que raspar o peito e axilas para refilmar a cena da crucificação.  Sério mesmo.
Imagine que o ator, com aproximadamente trinta e cinco anos e todo o "Physique du Rôle" para interpretar Jesus Cristo no cinema, precisou dessas correções para se adequar perfeitamente ao papel de "Messias", porque um Jesus com pêlos no peito evocava uma sensualidade masculina que ofendia a sensibilidade puritana da platéia da época.
E Jeffrey nem tinha tantos pêlos no peito assim, como podemos observar na última imagem abaixo:
Jeffrey também precisou alongar e afinar (com recursos de maquiagem) o nariz, que era um pouco curto e com abas meio largas para o perfil messiânico que conhecemos através de pinturas renascentistas.
Nada é perfeito. 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sobre o possível "plágio" em Inception

Está é para os fãs de quadrinhos e quetais: “Come out, come out, wherever you are.” :)

Poucos sites dedicados ao Cinema falaram sobre isso, mas no meio dedicado aos quadrinhos, principalmente nos Estados Unidos, o assunto do momento são as diversas coincidências entre o roteiro de “Inception” (A Origem), direção de Christopher Nolan, e a história em quadrinhos “Uncle Scrooge and the Dream of a Life-time”, publicada em 2002, na Finlândia e posteriormente (2004) nos Estados Unidos.


A repercussão, lógico, ainda é pequena, mas se confirmado o plágio (algo que eu não acho que seja realmente possível), será um escândalo digno de equiparar, senão superar, o escabroso caso Milli Vanilli (quem lembra?) em meados de 1990. Afinal de contas trata-se de um filme que ganhou justamente o Oscar de "melhor roteiro"  em 2011 e, lembrando-se que teve "tons of" de gente famosa, gabaritada, etc., rasgando seda para Nolan, o escandâdo de um possível plágio não estará no gibi. Ou estará, sei lá. :)

Sobre as coincidências, tal qual o filme, a história em quadrinhos começa com os Irmãos Metralha usando um mecanismo capaz de entrar nos sonhos de Tio Patinhas e roubar seus segredos. Os Metralhas planejam a combinação do segredo do cofre do pato muquirana, mas ao entrar na mente do velho pato, ficam confusos não conseguindo distinguir entre a realidade e os sonhos. No filme “A Origem” totens ajudam os viajantes de sonhos a distinguir a diferença, na história em quadrinhos isso não fica claro. Apesar disso, outra coisa surpreendente nela é o fato do Tio Patinhas só ter sonhos considerados “ruins”, ou seja, o que para os Metralhas parecia um pesadelo, para o Tio Patinhas era uma espécie de Purgatório psicológico. Outro ponto em comum com Inception.

Descobrindo o plano dos Metralhas, Donald entra na mente do tio para salvá-lo – O Professor Pardal explica que existe o risco do velho pato acordar com os Metralhas dentro de sua mente, algo que poderia causar sua loucura ou morte. Na mente do Tio Patinhas, Donald descobre que a única maneira de frustrar o plano dos metralhas é direcionar seus sonhos. Outra descoberta de Donald é que ao serem “lançados brutalmente” para fora do sonho, os Metralhas acordam. No caso da revista em quadrinhos, os Metralhas devem cair no limbo formado pela dissolução do sonho antigo, enquanto que no filme “A Origem” o esquema é ligeiramente diferente, porém as semelhanças persistem.

Outra coincidência entre Inception e a revista em quadrinhos é o fato de Tio Patinhas nunca se lembrar do sonho anterior, exatamente como a personagem do ator Cillian Murph em “A Origem”. E, lógico, o romantismo não fica de fora. Tio Patinhas vive sonhando o mesmo sonho com a primeira namorada, Goldie. Um sonho que nunca acaba, porque ele sempre acorda antes dele terminar. Embora nos quadrinhos não fique claro se Goldie morreu ou está viva, tal qual Di Caprio, Tio Patinhas tem sonhos recorrentes com a mulher que amou, porque se sente angustiado por alguma coisa que ocorreu no passado e pela qual se culpa.
Enfim, se alguém quiser ler a história em quadrinhos e procurar mais semelhanças entre ela e Inception (ou contestá-las), ela está disponível aqui, em inglês.

A polêmica, por enquanto, existe mais a título de curiosidade, porque mesmo a Disney – detentora dos direitos sobre a história em quadrinhos – não considerou ou se pronunciou sobre o assunto. Quanto a Nolan, ele defende-se afirmando que a escrever “Inception” no final dos anos 90, bem antes da publicação da história em quadrinhos pela Disney.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Documentário: O Homem Urso (republicação)

Lembro-me de um pastor alemão que meus avós tinham em casa quando eu era pequena. Ele não era muito bravo, mas como os vizinhos recém chegados possuíam um gato vira-latas, minha avó achou que seria prudente manter o cachorro preso durante a noite. O quintal era enorme, mas isso não impedia que o bendito gato sempre andasse, todo desafiador, por sobre o muro. No começo era apenas alguns metros, o cachorro latia e ele rapidamente corria e saltava para o lado de sua casa. Até aí, nada demais, gatos testam os limites de seu território, tentando sempre ampliá-lo. Só que com o passar do tempo o gato foi ficando mais confiante e o cachorro mais furioso. A coisa evoluiu até ao ponto em que o gato cruzava toda a extensão do muro e o cachorro não latia mais. Apenas observava o caminhar elegante, o rabo erguido desafiadoramente e depois, quando o gato saltava para dentro dos limites de seu próprio quintal, o cachorro voltava para o seu canto e deitava, silencioso.

Um dia, o gato achou que era o momento de aumentar o seu território. Começou a cruzar ostensivamente o quintal durante o dia e, quando percebia a proximidade do cão, corria, saltava para o muro, onde andava - indiferente aos fortes e indignados latidos – por toda sua extensão até pular para a segurança de sua casa. Depois disso, virou putaria. O gato perdeu o respeito e a noção do perigo começou a cruzar o quintal, cada vez mais longe do muro e cada vez mais perto do cachorro. Todos ficaram temerosos de que um dia o cão alcançasse e matasse o gato, mas o bichano era esperto e sempre se safava. Essa rotina foi se repetindo até ficar tediosa e todos se cansarem dela, exceto - claro - o gato e o cachorro. Assim, o gato continuava invadindo o quintal, o cão corria para atacá-lo e o gato saltava para o muro, o cão latia indignado e o gato andava por toda sua extensão até chegar em casa.

Um dia, plena madrugada, e meu avô mais uma vez escutou o rosnado furioso, seguido pelo tropel das patas do cão correndo pelo gramado. Era o gato. Mas dessa vez não houve latidos furiosos. Somente o silêncio reinou até o amanhecer. Meu avô voltou a dormir e pela manhã, quando minha avó acordou para fazer o café, encontrou o cão e o gato juntos, isto é, encontrou o cão e os pedaços que sobraram do gato. A cabeça do bichano jazia junto a porta, perto das patas do cão, a parte dianteira do corpo encontrava-se próxima a um vaso de folhagens e a traseira, juntamente com as víceras parcialmente mastigadas, estavam regurgitadas junto ao muro. O gato finalmente pagara o preço por chegar perto demais do cão e longe demais do muro.

Lembrei-me dessa história quando vi o documentário sobre a vida de Timothy Treadwell, um pseudo-ambientalista norte-americano que se mandou para o Parque Ecológico de Katmai, no Alaska, e passou 13 anos filmando e convivendo com os Ursos cinzentos. Convivendo mesmo, porque contrariando o que todo ecologista sério evita fazer, Timothy se aproximava demais dos animais, interferindo em suas vidas. Chegou tão próximo deles que um dia ele se deu mal. O documentário foi feito a partir das 100 horas de filmagens encontradas pelo piloto junto aos restos dos corpos de Treadwell e sua namorada do momento, Amie Huguenard. Todas as fitas foram usadas no documentário, excessão a última, justamente a que gravou os gritos agoniados de Timothy e Amie enquanto seus membros eram destroçados e devorados por um dos ursos que ele tanto amava.

A lição básica que um ecologista precisa saber - e que Timothy, pelo jeito não sabia - é que na Natureza, presas são presas e predadores são predadores. Por isso, ao observar animais selvagens, sempre é bom guardar certo respeito por eles. Animais podem ser lindos e parecerem fofinhos, mas eles não existem para serem acariciados e conviver com eles não é necessariamente se aproximar e abraçá-los como se fossem bichos de pelúcia. Timothy - e o gato - ficaram confiantes, porque baseados numa experiência anterior, julgaram que nada lhes aconteceria. Um dia a situação mudou e eles pagaram o preço por desafiar a sorte.

sábado, 4 de setembro de 2010

Lebensborn : Uma história de Guerra; Racismo; Eugenia e Bullying.

Sabemos que a política racial nazista foi uma das coisas mais horrendas forjadas pela mente humana, porém , embora no quesito pensar e fazer merda os nazistas fossem excelentes, a grande verdade é que eles não eram tão originais assim, pois muitas das idéias colocadas em prática pelo governo nazi-alemão foram baseadas em teorias científicas largamente difundidas e defendidas por “estudiosos” de vários países – entre eles os ditos “países aliados” - durante o final do século XIX e início do século XX.

E muitas dessas teorias se sustentavam – pasmem - exatamente na teoria darwiniana sobre a Seleção Natural e a Origem das Espécies. Assim, não faltaram mentes brilhantes, algumas delas gozando de renome no meio científico (Mendel, Malthus, Francis Galton), demonstrando simpatias, senão defendendo publicamente, no caso de Galton, a implantação de uma política de eugenia para “aprimorar” a raça humana.
Apenas a repugnância moral e a falta de coragem política para enfrentar uma sociedade que não via com bons olhos a interferência científica em algo que, pela crença geral, deveria ser decidido pelas leis naturais (ou por Deus), continuaram a impedir que os argumentos pró-eugenia se transformassem em ações efetivas de purificação da raça humana.
Quebrar esse tabu, ou cruzar essa fronteira, coube ao governo nazista, o qual nunca teve escrúpulos morais e menos ainda éticos para colocar tais idéias científicas em prática. Embora nos EUA, país da Ku Klux Klan e lugar onde o conceito “raça” tem, sem dúvida alguma, mais importância que em qualquer outro lugar do mundo - inclusive nos dias atuais-, já existiam práticas de esterilização em massa de pessoas em quase a metade ( vinte e quatro) dos cinqüenta estados norte-americanos. Logicamente a maioria das vítimas desses procedimentos eram pobres (geralmente negros ou mestiços) trancados em instituições psiquiátricas. Desnecessário dizer que essas políticas de purificação racial caíram totalmente em desuso no Ocidente depois do pesadelo nazista, mas não deixa de ser engraçado como nos livros de história essas páginas foram cobertas convenientemente com um providencial manto de silêncio....

Naquela época, no resto do mundo, as coisas não eram muito diferentes dos EUA, embora o tema eugenia se restringisse mais a discussão teórica do que prática. Em 1930, quase às portas da deflagração da Segunda Grande Guerra, pessoas como o “eugenista” (sim existia esse termo e eles eram respeitados no meio científico) inglês chamado Wicksteed Armstrong escreveu e publicou um livro chamado “The Survival of the Unfittest”, no qual defendia “a diminuição da fertilidade perigosa dos ineptos através da segregação, esterilização e – adivinha?- “câmara letal”. Portanto, não duvide, qualquer semelhança entre o que defendiam esses “eugenistas” e a política de “purificação racial ariana” implantada pelos nazistas não é mera coincidência.

Porém, os nazistas sabiam que a política de purificação e criação de uma raça ariana não dependia somente de colocar em prática a esterilização e o extermínio dos indivíduos geneticamente impuros, era necessário que também fosse estimulado o nascimento de novos seres humanos, descendentes exclusivos de matrizes arianas geneticamente selecionadas. E é nesse momento que surge o projeto Lebensborn, criado em 12 de dezembro de 1935 por Heinrich Himmler e surgido em parte da necessidade do governo nazista em combater o decrescente índice de natalidade do povo alemão, estimulando assim a criação de famílias mais numerosas e desestimulando o aborto.

A idéia inicial do projeto era proporcionar incentivos aos alemães, especialmente agentes das SS, a terem mais filhos suprindo o país com indivíduos de raça ariana pura. Assim, dentro do projeto Lebensborn, as mulheres dos oficiais da SS recebiam incentivos do Governo para serem mães e dispunham de toda uma rede de assistência beneficente para isso, como por exemplo maternidades com enfermeiras e uma ajuda de custo para o sustento de seus pimpolhos. Imagino que era um tipo de “bolsa família” alemão, só que mais ambicioso e visando outros fins que não o bem estar da população. Porém, a medida que a guerra estendeu-se para outros países e os alemães submeteram outros povos ao jugo nazista, o projeto Lebensborn passou a aceitar e cuidar de filhos de mães solteiras e amantes de oficiais da SS, desde que ficasse comprovado que tanto o pai, quanto a mãe eram arianos puros, não importando a nacionalidade. Também começaram a seqüestrar e selecionar entre as crianças dos países ocupados, aquelas que apresentavam características arianas. Se a criança fosse aprovada como um ente de raça pura, ela era enviada para adoção de uma família cadastrada no projeto, se fosse recusada, seguia para os campos de concentração e extermínio, onde aquelas que não morriam durante o transporte eram sacrificadas em câmaras de gás ou usadas em experimentos “científicos” como aqueles praticados pelo famigerado Dr. Josef Mengele.

Milhares de poloneses tiveram seus filhos seqüestrados, selecionados e enviados para campos de extermínio. Quanto aos filhos de mulheres de países ocupados com oficiais da SS, já durante a guerra estas crianças e suas mães despertaram o ódio e a rejeição do povo e do governo exilados no exterior. Através de rádios como a BBC de Londres, o governo refugiado dos países ocupados advertiam às mulheres que se deitavam e tinham filhos com os alemães que as coisas poderiam ficar muito desagradáveis para elas e seus filhos quando a guerra acabasse e os nazistas fossem derrotados. Ameaças que após a derrota do exército alemão foram efetivamente colocadas em prática da forma mais cruel possível, especialmente contra as crianças lebensborn.

Depois da guerra, elas foram submetidas aos mais diversos abusos em nome da vingança: aquelas que não tinham mães ou foram por elas abandonadas, foram internadas em orfanatos e clínicas para doentes mentais – algumas desenvolviam autismo, porque eram criadas sem nenhum contato emocional com outro ser humano- , ou então, mesmo sãs, consideradas doentes mentais por puro preconceito e passavam a infância, adolescência e parte da juventude presas em clínicas de loucos.
Já aquelas que viviam com as mães sofriam todos os tipos de abusos conhecidos na escola, na rua, na cidade, aquilo que atualmente aprendemos a classificar como bullying: Apanhavam, eram violadas física e emocionalmente e, para piorar, as suas mães, chamadas gentilmente pelo povo de “putas nazistas”, não conseguiam emprego ou eram expulsas pela família, vendo-se obrigadas a se prostituir para buscar sustento próprio e dos filhos. Note que o único crime dessas mulheres foi se deitar (nem sempre por vontade própria) e engravidar de um soldado alemão. Fora esse detalhe, essas mulheres não tinham atentado contra nenhuma lei, mas com a conivência do governo foram abandonadas à ânsia de vingança do povo que encontrou nelas e nessas crianças, consideradas"ranhos nazistas" seu alvo perfeito.

No pós guerra, relatos de maus tratos contra crianças que tiveram essa origem são inúmeros e assombrosos. Ex-internos do orfanato de Bergen, por exemplo, relatam que foram obrigados a desfilar pelas ruas da cidade recebendo golpes de açoite e cusparadas. Outra testemunha relata que foi colocado numa pocilga junto com outros meninos e lá passou dois dias inteiros vivendo como se fosse um porco. Há histórias escabrosas de crianças mutiladas com ácido para tirar delas o “cheiro de nazista” do corpo.

Em casos melhores documentados, como o de Paul Hansen, podemos ter idéia do que exatamente aconteceu com essas crianças. Apesar de não sofrer de nenhum distúrbio mental, Paul foi confinado em um hospital psiquiátrico durante 20 anos e quando saiu de lá já havia perdido todas as oportunidades de educação normais para uma pessoa de sua idade. Ele fez parte do primeiro grupo de lebensborn que processaram o governo norueguês, no início desse século (XXI).
A norueguesa Gerd Fleischer, foi outra que lutou para que os direitos dos lebensborn fossem reconhecidos em seu país. Por conta do preconceito e dos espancamentos que sofria do padrasto com a conivência da mãe, ela se viu obrigada a fugir de casa aos treze anos e viveu por muito tempo como sem-teto. Deixou o país aos dezoito e só voltou quase vinte anos depois, quando conseguiu refazer sua vida e resolveu voltar ao seu país e lutar pelos direitos de cidadã que lhe foram negados devido ao seu nascimento. Durante esse período Gerd encontrou e processou o pai alemão, que se negou a reconhecê-la como filha, obrigando-o a assumir a paternidade. No país onde nasceu criou uma organização para defender o direito da geração lebensborn e da Justiça para todos.

Outro testemunho interessante sobre a geração lebensborn é o do alemão, Olaf Sinner-Schmedermann. Boa parte do que eu relatei nesse post, encontrei no relato dele. Homossexual e ex-bailarino, filho legítimo de pais alemães, ele confessa ainda sentir vergonha de sua origem, mas orgulho de ser hoje tudo o que os nazistas desprezavam e tentaram destruir. Segundo ele, sua mãe, uma mulher que compactuou com os ideais nazistas até a morte, ao descobri-lo homossexual aos 16 anos de idade, afirmou que se vivessem na época da Alemanha nazista o seu destino seria a câmara de gás. O pai de Olaf era um soldado da SS e foi realmente casado com sua mãe, mas ela abandonou o marido assim que Olaf nasceu e foi viver com a família. Por conta disso, ele nunca se relacionou com o pai, o qual viu apenas algumas vezes durante a infância. A única vez que foi visitá-lo, aos vinte anos, encontrou-o em estado lastimável, chegando a tropeçar em seu corpo embriagado na rua. O pai de Olaf morreu devido ao consumo excessivo de drogas e bebidas aos 63 anos de idade.

Na época que deu esse depoimento, Olaf contava com 43 anos de idade, hoje ele teria mais de 68 e nem sei se ele ainda vive ou  morreu. Tudo o que sei é que a maioria dos homens e mulheres da geração “lebensborn” contam hoje com mais ou menos a mesma idade e só agora sua história começou a ser conhecida pelo público, inclusive na Alemanha.

Vários lebensborn vítimas da perseguição chegaram a entrar com denúncias por maus tratos no Tribunal de Direitos Humanos de Estrasburgo, mas não tiveram seus pedidos aceitos sob a alegação de que tais fatos aconteceram há mais de 20 anos e prescreveram. Porém os advogados contra-argumentam que não se deve levar em conta apenas os fatos acontecidos durante a infância, mas também aqueles referentes aos anos posteriores à guerra, já que as conseqüências se prolongaram durante uma vida inteira.

Curiosidade: A talentosa Frida Lyngstad, ex-integrante do extinto grupo ABBA foi uma criança lebensborn.