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domingo, 3 de junho de 2012

FORA DO TOM

No mundo literário dedicado aquele nicho que os críticos classificam como “Literatura Cor-de-Rosa”, o nome que atualmente se destaca é o de Erika Leonard James, uma ex-gerente de produção de TV, casada e mãe de dois filhos adolescentes.

Inspirada (e apaixonada) pelos livros da Série Crepúsculo, Erika começou a escrever em meados de 2008 variações sobre a trama em sites de Fanfiction, lugares onde os fãs podem postar versões próprias de livros de sucesso favoritos. Um belo dia Erika saiu um pouco da rotina e começou a escrever aquilo que seria esboço do seu primeiro livro da Trilogia que agora faz sucesso entre seus fãs: Uma história semelhante aquelas que compramos em bancas de jornais e que fizeram o nome de escritoras renomadas no meio, como por exemplo, Barbara Cartland, considerada a rainha dos romances cor-de-rosa no seu país de origem: A Inglaterra. O diferencial entre os romances de Barbara Cartland e Erica Leonard James é que a história de Erika envolve sexo. Não apenas o sexo, digamos “convencional” que estamos acostumadas a ler em livros mais picantes estilo “Momentos Íntimos”, mas uma história onde protagonistas não tem medo de sair da rotina papai "meets" mamãe, para sessões de sexo picantes envolvendo Bondage e Sado-mazoquismo. Tudo com o consentimento dos protagonistas, lógico. :)

Sim, a heroína de Cinquenta Tons de Cinza, embora ingênua e virginal, como qualquer heroína de um romance de Barbara Cartland, não se assusta ao descobrir que seu “príncipe encantado”, além de bonito, rico e sexy, tem um apetite sexual e tendências sexuais além daquelas consideradas convencionais pelos mortais comuns. Digamos que estamos diante de um romance onde o protagonista não é nenhum Mr. Darcy e o termo “baunilha” fica no passado, porque, na luxuosa cobertura onde o “herói” de Cinquenta Tons de Cinza vive, num cômodo situado entre paredes decoradas com veludo e couro negro, podemos encontrar todo um aparato que deixaria os praticantes de bondage e S&M inspirados: cama gigante, almofadas macias, chicotes, coleiras, algemas e tudo mais que for necessário para a prática de sexo sadomasoquista. O diferencial entre esse romance e os outros é que em vez de proposta de casamento, o mocinho propõe a heroína que ela se torne sua escrava sexual e objeto de prazer. E ela... Aceita! Uma desconstrução do mito romântico da Cinderella (e outras princesas de contos de fada) que deixaria qualquer vovó de cabelos em pé.

Vendido inicialmente como E-book e tornando-se rapidamente um grande sucesso principalmente entre as mulheres, ávidas leitoras desse tipo de literatura (porém não somente elas, vale a pena frisar isso), não demorou muito para o livro atrair a atenção de Editoras Norte-americanas que passaram a disputar os direitos de publicação, inclusive os direitos de adaptação cinematográfica. Considerado um “fenômeno literário” por alguns críticos, o livro é criticado por outros que acusam a história de funcionar como manual erótico de auto-ajuda para donas de casa entediadas. O caso é que, gostando ou não, o livro é sucesso e já tornou-se uma trilogia. As seqüências encontram-se a disposição dos leitores na forma de e-books : “Cinquenta Tons Mais Escuros” e “Cinquenta Tons de Liberdade” (sic).

Não entendo o porquê de tanto auê em torno do tema. Aliás, até entendo, porque histórias envolvendo sexo, sempre fazem sucesso e todo mundo lê, mesmo aqueles que negam esse tipo de interesse literário, porém, quanto ao tema abordado por Cinquenta Tons de Cinza, particularmente acho bondage e sadomasoquismo práticas sexuais “boring”. Não me excitam, não me despertam interesse e essa história de "um tapinha não dói" não me agrada. Detesto pessoas agressivas, seja na cama ou fora dela, mas é compreensível que algumas pessoas sintam curiosidade e resolvam se “informar” , ler, e também “gostar” daquilo que descrevem para elas. Eu mesma, apesar do que afirmei no parágrafo anterior, não posso jurar que não lerei a trilogia ou não assistirei o filme.
Mulher é bicho curioso e, além do mais, a fantasia erótica de ser submisso (ou submissa) a um macho (fêmea) alfa ainda povoa a mente de muita gente, homens e mulheres, e é esse o nicho que "Cinquenta Tons de Cinza" pretende reconquistar.
Sim, reconquistar, já que livros  como "A História de O" (1954, Pauline Réage), um livro que também virou filme em 1975, já abordaram o tema no passado.

Aqui no Brasil, os direitos da obra foram recentemente adquiridos pela editora Intrínseca e o lançamento está previsto ainda para esse ano. Já a adaptação cinematográfica ainda pode demorar um pouco.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Cartas de uma Adorável Portuguesa

Quem estuda ou é apaixonado por Literatura ou teatro certamente já leu ou ouviu falar de “Cartas Portuguesas” ou “Cartas De Uma Freira Portuguesa”, uma série de cinco cartas de amor atribuídas à sóror Mariana Alcoforado (1640-1723), uma freira portuguesa que viveu no Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Beja, região do Alentejo, e cujo texto é considerado por muitos como referência em literatura romântica, tanto pelo seu primor estético, quanto pela sua grande qualidade literária.

Quem lê as cartas destinadas ao oficial de cavalaria francês, o capitão Noël Bouton (1636-1715), certamente nota a paixão, o amor e a esperança despertadas pelo oficial francês no coração daquela mulher solitária e refinada, que devido as conveniências da época, foi obrigada a ingressar em um Convento aos onze anos de idade. É praticamente impossível ler e não se comover, não se emocionar, não se irritar com o drama que se desenvolve nas entrelinhas desse diálogo e tempos depois, quando a relação deixou de existir e ambos seguiram com suas vidas. Para falar a verdade, Cartas Portuguesas é praticamente um monólogo de amor, uma vez que, pelo que se sabe, as cartas de Bouton para Mariana nunca foram encontradas. Ela menciona essas cartas em sua última resposta ao ex-amante e faz menção ao propósito de devolve-las, uma clara demonstração de sua intenção de terminar de vez aquele relacionamento, porém essas cartas ou foram destruídas ou se perderam nas areias do Tempo . Porém, para a nossa sorte e para o risco de opróbrio da honra de sóror Mariana, Bouton teve o desplante de permitir que as cartas dela fossem publicadas, mesmo que anonimamente, quando ambos ainda viviam, o que causou grande polêmica entre os moralistas da época. Por muito tempo, como não se conhecia a autora do texto, ele foi considerado apócrifo, atribuído ao Conde de Guilheragues, mas em 1.810, o jornal parisiense L’Empire, baseado nas investigações posteriores, desvendou o nome de ambos.

Agora, para se compreender o que aconteceu e o quanto Bouton foi cretino e Mariana vítima das circunstâncias (e da sua paixão) é necessário sair da mentalidade moralista e pequeno-burguesa de nosso mundo e buscar a compreensão do contexto histórico onde ambos estavam inseridos: Ela, uma mulher solitária que se viu de repente vivendo em um convento antes mesmo de ingressar na adolescência, provavelmente sem nenhum tipo de vocação religiosa; ele, um jovem da nobreza e oficial do exército francês, casado e servindo em país estrangeiro.
 Pois é, naquela época, quando doenças sexualmente transmissíveis eram praticamente incuráveis e quando não existia nenhum tipo de proteção para as relações sexuais, como temos hoje, era senso comum entre os soldados de alta patente, geralmente descendentes de famílias nobres, buscar amantes em lugares onde a promiscuidade fosse praticamente inexistente. Assim, seduzir uma jovem e virtuosa mulher casada, uma donzela pobre solteira, ou, como no caso de Noel Bouton, uma freira virgem e inexperiente, e mantê-las como amásias durante o período em que estivessem servindo fora de seu país, era pratica comum, embora, quando descobertas, se tornassem motivo de escândalo, ainda mais quando envolviam membros de famílias ricas e influentes, como no caso da família de Mariana.

Noel e Mariana provavelmente se envolveram entre os anos de 1.666 e 1.668, quando ele serviu em Beja com as tropas enviadas pelo rei Luis XIV para auxiliar o rei de Portugal em sua luta contra o rei da Espanha. Quando o tempo de servir acabou e era iminente a partida do oficial francês para o seu lar, Mariana escreveu a primeira carta, um apelo angustiado, no qual se nota a suspeita de que teria sido abandonada, mas ainda assim se percebe nessa carta que ela acalentava remotas esperanças de partirem juntos para a França (“Meus olhos perderam nos teus a única luz que os animava...”; “... Se me fosse possível sair deste malfadado convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa...”).
Noël Bouton era casado e provavelmente não revelou esse detalhe para Mariana,  quando as suspeitas do envolvimento entre os dois começaram a circular na região, ele partiu sem responder, talvez por temer um escândalo (a família de Mariana era muito conhecida e rica). Mariana, ao perceber o acontecido, escreve-lhe uma segunda carta, onde a dolorosa constatação do óbvio fica claríssima nesse trecho: (“...me iludi pensando que terias comigo um procedimento mais leal que de costume...”).
Mesmo assim, ela ainda continua escrevendo-lhe da clausura do Mosteiro até se dar conta de que jamais se encontrariam. Eescreve na última carta: “ É mister que o deixe e não pense mais em si. Creio que não tornarei a escrever-lhe. Tenho acaso alguma obrigação de dar-lhe conta de meus sentimentos?”. Impossível não perceber a dor e a desilusão daquela mulher, expressos nessa última frase e não se identificar com elas.

Ao longo dos anos, desde que foram publicadas, as cinco missivas atribuídas a Mariana foram objetos de polêmicas e discussões entre filósofos (Russeau entre eles*) e estudiosos literários, principalmente aqueles que debatem se elas foram realmente escritas por Mariana ou apenas obra fictícia Conde de Guilleragues. O caso é que os originais em português nunca foram encontrados e isso desperta sim a suspeita de que a atribuição de sua autoria a uma freira internada em um convento em Portugal seja apenas golpe de marketing do autor, porém os defensores de que sua autoria seja mesmo de sóror Mariana alegam que ninguém conseguiu explicar de forma plausível o porquê de uma obra escrita em francês conter tantas coincidências sintáxicas típicas da língua portuguesa, coincidências que só se explicariam se elas fossem, lógico, realmente uma tradução literal ou então escritas por alguém que, conhecendo o idioma francês, não o dominava completamente ao ponto de redigir um texto com absoluta perfeição. Era de conhecimento de alguns estudiosos que na casa da família de Mariana, encontrava-se na época vários livros e textos em francês e que o idioma, portanto, não era desconhecido por ela, embora, talvez, não o dominasse completamente, o que, em tese, explicaria tudo. Particularmente eu gosto de pensar que a autoria das cartas são mesmo de sóror Mariana e que esse amor, mesmo com final infeliz, tenha realmente existido, porque, na minha opinião, é melhor amar e sofrer, do que não amar.

Cartas Portuguesas inspiraram filmes, livros, textos teatrais e até mesmo litografias elaboradas por Matisse (1869-1954); o mosteiro de Beja, onde Mariana viveu e que na sua época chegou a ser um dos mais ricos de Portugal, contando com uma população de aproximadamente 200 religiosas, fora as outras internas, como mulheres órfãs e viúvas, foi desativado e parcialmente demolido; Noël Bouton ,exceto pelo envolvimento com Mariana,  descrito em Cartas Portuguesas, provavelmente teria seu nome esquecido pela história. Ele viveu com a família até o falecimento, em 1.715; quanto a sóror Mariana, ela superou o ocorrido e se resignou a viver a vida religiosa, onde era muito considerada e respeitada entre os que a conheciam por conta das boas obras e sacrifícios praticados. Tanto reconhecimento, sensibilidade e erudição (se ela realmente foi a autora das cartas) não ficariam sem render frutos e eles legaram à Mariana a posição de abadessa do Convento em Beja, onde ela morreu, já idosa, aos oitenta e três anos de idade em 1723.
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(*) Na polêmica literária que se seguiu sobre a autoria das cartas, o cretino do Russeau, que julgava-as belas demais para serem idealizadas por uma mente feminina (?!), negava-lhes preconceituosamente a autenticidade. Só faltou ele explicar, porque a geniosa mente francesa que escreveu as cartas, não teve a capacidade de escreve-las usando a sintaxe correta do francês, por exemplo. :)

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Muitas pedras rolarão...

Com Jagger,
no auge da fama
... antes que tudo sobre o que aconteceu com o grupo Rolling Stone possa ser escrito em  apenas um livro, mas quando o poeta e ilustrador romântico, William Blake, escreveu que "Os caminhos do excesso levam ao palácio da sabedoria", provavelmente estava ébrio e, como todo ébrio, errou de endereço. Ou trocou as palavras. :)

O pobre Blake certamente bateu na porta errada. O palácio em questão, aquele que realmente procurava, enquanto “trilhava os caminhos do excesso”, era o palácio da putaria e, em se tratando de putaria, ninguém pode falar com tanta autoridade do assunto, quanto os integrantes do Rolling Stones: Mick Jagger e Keith Richards. E eles nem precisam se preocupar em errar de porta, porque no caso desses dois, eles possuem GPS. Falou que tem putaria e cheiro de buceta, eles acham a porta certa por instinto. Ou osmose. :)

Keith jovem: gatinho.
Como não sou preconceituosa e não me importo com o que você faz com seu corpo no resguardo sacrossanto de seu lar ou similares, sempre tive Sir Mick Jagger como expoente máximo dessa época, considerada a “época de ouro” do Rock. E não me importa que hoje muitos achem ele um velhinho caquético, para mim ele é um deus do rock e, como tal, nunca envelhecerá, sempre será o jovem rebolativo cantando “Satisfaction” em minhas lembranças. Aliás, quando jovem, ele era lindo e comeu -naquela época e em épocas recentes - muitas mulheres (e segundo as más línguas, alguns homens) muito interessantes, a maioria compondo um rol de belezas que nós, pobres mortais, jamais sonharíamos em chegar perto.

Porém, algumas vezes, certos acontecimentos nos levam a mudar e rever certos conceitos e, de repente, nunca mais conseguimos ver, ouvir, desfrutar de certas coisas com os mesmos sentidos de antes. Percebo que isso aconteceu recentemente comigo quando li “Life”, a autobiografia de Keith Richards, publicada em meados de Outubro do ano passado.

Como disseram por aí: “Você nem precisa gostar dos Rolling Stones (como eu gosto) para gostar desse livro. Você só precisa amar os gênios e os loucos. (Quem não ama?)”
O livro é bom, porque é polêmico, como Keith Richards sempre foi. No livro ele faz umas revelações indiscretas sobre as particularidades de Jagger que são meio hilárias, entre outras, por exemplo, revela ao leitor que o vocalista dos Rolling Stones tem um “pinto” muito pequeno, mas “com bolas enormes”, porém isso (na opinião de Richards) não compensava muito; apensar da fama de garanhão de Jagger . Em outra passagem ele diz que Lennon (John) era apenas um jovem bobinho “em muitos sentidos” (*) e chama outro John, Sir Elton John, de “puta velha”.

Keith hoje: Drogas e o tempo
fizeram estragos
No que diz respeito aos Rolling Stones, eu sempre privilegiei o Jagger em detrimento do Keith. Talvez por Jagger ser o vocalista da banca e por ter sido (na juventude) o mais gatinho do grupo, ele sempre monopolizou as atenções dos fãs, principalmente das mulheres. Porém sabemos que mesmo as estrelas, para brilharem, necessitam de combustível e esse combustível, só agora descobri, era a guitarra (e o talento) de Keith Richards.

Portanto, depois de ouvir várias das músicas dos Stones nos últimos dias (enquanto lia o livro) posso dizer com toda segurança ao Sr. Mick Jagger que apesar de todo respeito e admiração que tenho por ele enquanto profissional, doravanete está tudo acabado entre nós. Foi prazeroso, não posso negar, mas a partir de agora meu coração é só do Keith. :)

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(*) O termo usado no livro é "silly sod", que pode ser traduzido como tolinho. "Silly sod, in many ways"= "um tolinho em muitos sentidos".  Curiosamente a palavra "sod" em inglês britânico também significa "viado", "homossexual" quando usado em sentido chulo (sod= short form of sodomite), porém não acredito que seja esse o sentido usado por Richards, que gostava de Lennon, o qual costumava frequentar, juntamente com a mulher Yoko Ono,  as festas que o guitarrista dava em sua casa.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Momento de reflexão

Um Cão apenas

Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito – eis-me no patamar. E a meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal do pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gasta, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrimas que há nos olhos das pessoas muito idosas. Com grande esforço acaba de levantar-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonha-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer enquanto dormem...
Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves: acomodando as patas da frente, arrastando o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou gesto. Mas eu não queria o vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para um tratamento... Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.

Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer neste complexo mundo dos homens.
Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar sem dúvida sobre o caminho, como se fosse visitante habitual, e começou a descer as escadas e suas rampas, com as plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.
Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era no entanto uma forma de vida. Uma criatura desse mundo de criaturas inumeráveis. Esteve ao meu alcance; talvez tivesse fome e sede; e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir assim humilhado, e tão digno, no entanto: como alguém que respeitosamente pede desculpas por ter ocupado um lugar que não era seu.

Depois lembrei que todos nós somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa, e a escada que descemos e a dignidade final da solidão.
(Cecília Meireles)

Toda vez que leio esse texto, eu me emociono. Já vi muitas vezes o olhar desse cãozinho, não só em animais, como também em pessoas; já senti muitas vezes o mesmo amor caridoso e impotente, do qual fala a autora. E todas as vezes que relembro esses momentos, sinto o remorso roer meu coração. Deixar um sentimento intangível de caridade se transformar em algo mais concreto que apenas empatia inútil não é tão difícil, mas exige coragem. Porém fui fraca, covarde, me omiti. Terei que carregar o peso do remorso até o fim de meus dias, porque às vezes é mais fácil perdoar nosso próximo do que a nós mesmos.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Necrologia - Fevereiro 2011


Luto no meio literário: Nem deu tempo de comentar aqui sobre o falecimento de Moacyr Scliar e Benedito Nunes, porque eu só soube do ocorrido pelo Twitter, dias depois. Faleceram ambos no mesmo dia, último domingo, dia vinte e sete de fevereiro. O primeiro de falência múltipla dos órgãos (conseqüência de um AVC) e o segundo de hemorragia estomacal.

Ambos são considerados uma grande perda para a área da literatura brasileira contemporânea, mas lamento especialmente pelo escritor gaúcho, Moacyr Scliar, homem gentil, educado e pessoa muito querida no meio por todos aqueles que o conheciam pessoalmente.
Moacyr Scliar, apesar de ser médico sanitarista de formação, era escritor pelo coração; um homem que sempre arranjava um jeito de se dedicar a arte de escrever e contar histórias. Ele foi autor de diversas obras literárias, as mais diversas, entre romances, contos, crônicas, livros infantis, ensaios e traduções e ganhador de diversos prêmios por conta de sua contribuição para a literatura brasileira.

Trabalhou durante 15 anos como colunista do Jornal Zero Hora, onde, lógico, falava especialmente sobre os assuntos que gostava e dominava: medicina, literatura e fatos do cotidiano.
Um de seus romances - Um Sonho no Caroço do Abacate - foi adaptados para o cinema e chegou até nós com o nome de "Caminho dos Sonhos", estrelado por atores e atrizes conhecidos do grande público de novelas, tais como: Tais Araújo, Mariana Ximenes, Caio Blat e Caco Ciocler, entre outros. Esse filme também foi a estréia como diretor de Lucas Amberg, cineasta brasileiro.

Moacyr Scliar era membro da Academia Brasileira de Letras, o sétimo ocupante da Cadeira nº 31, eleito em 31 de julho de 2003 e sucessor de Geraldo França de Lima. No site da página da ABL podemos ter acesso a lista de sua pletora produção literária (bibliografia). R.I.P., Moacyr  Scliar, descanse em paz.


Já o paraense Benedito Nunes era crítico literário, professor, escritor, ensaísta e filósofo, um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará e Professor Emérito da Universidade dessa universidade, já em 1998. Admirador de vários escritores brasileiros, tinha especial predileção pela obra de Clarice Lispector, a qual chamava simpatica e carinhosamente de "Dona Clarice", escritora considerada por ele como principal fonte de inspiração.

Conhecido e admirado por seus hábitos simples, ele era um homem de baixa estatura, apenas 1,60 m, mas considerado no meio como um dos maiores filósofos/pensadores brasileiros. Ganhou o Prêmio Jabuti em 1987, na categoria "Estudos Literários", com a obra: Passagem para o Poético - Filosofia e Poesia Heidegger (Editora Ática, São Paulo, 1986).

Obs: Já o povão no Twitter, comentava mesmo era a morte da ex-socielite  e ex-mulher de Chiquinho Scarpa, Carola de Oliveira, provavelmente de anorexia e outras complicações decorrentes desse mal que afeta  cada vez  mais mulheres no mundo.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Ten Little Niggers

Quando Agatha Chirstie escreveu o livro “Tem Little Niggers” (traduzido no Brasil como “O Caso do Dez Negrinhos”), o termo “nigger” não tinha o contexto negativo que atualmente possui na língua inglesa.

Porém, os tempos mudaram e atualmente, nos Estados Unidos, nigger (negro), é um termo extremamente racista. Pensando sobre isso e, para não gerar polêmica e ofender a comunidade afro descendente norte-americana, os detentores dos direitos autorais sobre a obra de Agatha Christie acharam que seria prudente mudar o título do livro para And Then There Were None (E então não
sobrou nenhum).

Achei a decisão lamentável. Mudar um título de livro ou tentar “maquiar” uma história só porque certos termos adquiriram significados considerados “politicamente incorretos” com o passar do tempo não é a saída para mudar o mundo. Pelo contrário, isso me parece mais uma decisão comercial que ideológica. Afinal de contas, para explicar essas mudanças existem recursos perfeitamente aceitáveis, como as já famosas “notas de rodapé” e “introduções” . Que façam uso delas, então. Ou os editores imaginam que os novos leitores do século XXI são tão “semi-analfabetos” que ignoram o que está escrito em uma “nota de rodapé” ou uma simples anotação?
Porém, querer “reformar” uma obra apenas para adaptá-la ao contexto do século atual é abusar do direito ao revisionismo. Do alto dessa estúpida arrogância, pessoas acham-se no direito de julgarem as gerações passadas como se fôssemos melhores que elas. E não são. São apenas seres humanos que deixaram-se afetar pelo excesso de escrúpulos e isso, na minha opinião, é uma forma de preconceito. Fica então o fato em destaque para futura reflexão: É certo mudar títulos e rever traduções e termos já consagrados usados em certas obras, apenas para adaptá-los aos novos conceitos morais do século atual? Essa é uma questão que as gerações futuras terão de responder e dela dependerá – talvez - a riqueza cultural do legado deixado pela história humana ao longo dos séculos.