Titulo Original: La Tetê en Friche(2010); País: França; Direção: Jean Becker. Elenco: Gérard Depardieu, Gisèle Casadeus, Maurane, Patrick Bouchitey, Jean François Stévenin, Claire Maurier, Sophie Guillemin.
Olha, se o título fosse “Minhas Tardes com marguerita (e uma tequilinha para rebater)”, poderia ser uma biografia recente de minha vida, mas obviamente trata-se do novo filme de Jean Becker, baseado numa adaptação do romance de Marie-Sabine Roger, chamado, La Tête En Friche.
Já aviso, não li o livro, mas me baseando pelo filme,acho que deve ser excelente, fiquei muito curiosa sobre as obras dessa autora francesa, nascida em 1957, em Bordeaux, França.
Eu geralmente gosto de filmes franceses, tanto quanto aprecio a língua, a cultura e as artes. Acho que existe um refinamento nas coisas que os franceses fazem que é só deles, algo inerente à alma daquele povo, algo que, sei lá, eu não consigo explicar. Nesse singelo filme de Jean Becker eu encontro tudo o que curto em um bom filme: diálogos interessentes, bela fotografia e um enredo que, apesar de aparentemente apostar num clichê, consegue fugir magistralmente da maioria. Marcelo Hessel viu o diabo em forma humana no filme, mas hoje em dia é possível ver pregação ideológica em quase tudo, até mesmo em propaganda de fraldas para bebês. Confesso que há tempos estou extremamente cansada com essa militância chata, quase neurótica, que só faz acumular rancor ao redor e em tudo o que toca e, se o filme na verdade é o eterno "Lobo Mau" travestido de vovózinha, e o público, representado por Gerard Depardieu, é uma espécie de Chapeuzinho Vermelho com muitos quilos a mais, desculpe, eu não percebi. Quer dizer, essa teoria pode até ter sentido, mas também pode não ter, porém de uma coisa eu sei, Marcelo: respeito precisa ser conquistado e, se por um lado precisamos de respeito, por outro precisamos, e muito, de piedade. Todos nós. Não acho que em momento algum o filme fale sobre respeito ou piedade, ele fala sobre amizade e reavaliação de conceitos, entre outras coisas o conceito de amizade. Quem são nossos verdadeiros amigos, aqueles que bebem conosco, batem em nossas costas, elogiam pela frente e nos consideram intimamente uns tolos, ou aqueles que se aproximam por empatia e compartilham conosco sua riqueza interior? Respeito? Piedade? Oi?! Não acho que o filme fale sobre isso.
A história em si, fala basicamente do relacionamento entre um homem mais jovem e uma mulher idosa; não um relacionamento sexual, claro, mas um relacionamento de amizade, carinho e cumplicidade. Vivendo em um mundo onde cada vez mais os jovens acham que os velhos são tolos, chatos, ultrapassados e reacionários, Minhas Tardes com Marguerite, nos fala como a aproximação com alguém mais experiente e sábio pode ser enriquecedora e, também, libertadora. Fugindo do clichê dos velhinhos carentes em busca de companhia, respeito pela terceira idade, etc. o filme nos mostra a aproximação e o estabelecimento da amizade entre as duas personagens exatamente como acontece na vida real, isto é, como uma troca. A idade ali não importa, Margueritte poderia ter qualquer idade, até mesmo ser mais jovem que Germain, o que importa é aquilo que ela tem para oferecer, assim como aquilo que Germain tem para oferecer de volta. E essa troca se dá pelo amor de ambos pela literatura (apesar de Germain ser um quase semi-analfabeto). No primeiro encontro entre os dois, Margueritte recita em voz alta versos de um livro que havia lido, chamando a atenção de Germain e dando a ele a oportunidade de estabelecer contado e descobrir através dela a magia dos livros, objetos que nunca fizeram parte de sua rude vida. Longe de ser aquela velhinha carente que se aproxima de estranhos buscando companhia, Marguerite se mostra uma mulher corajosa, doce e reflexiva e essa amizade leva Germain a rever muitas coisas na sua vida principalmente o relacionamento com sua mãe e as pessoas que o cercam.
Gerard Depardieu (Germain), depois de fazer alguns filmes podreiras nos EUA, está de volta à uma bem-vinda boa forma, não a física, claro, e a atriz, Gisèle Casadeus, interpreta de forma magistral e sem forçar, uma simpática Margueritte. Minhas Tardes com Margueritte é daquele tipo de filme que, ao terminar, deixa um gostinho de “quero mais”. Nota 9.

2 comentários :
Gosto DESSE tipo de filme francês que parece ser na mesma linha de Confidences trop intimes, Nelly & Monsieur Arnaud, Le placard. Verei.
Veja sim. E se não gostar, escreva um post dizendo os motivos. Adoro ler opiniões diferentes das minhas. =*
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