Quem estuda ou é apaixonado por Literatura ou teatro certamente já leu ou ouviu falar de “Cartas Portuguesas” ou “Cartas De Uma Freira Portuguesa”, uma série de cinco cartas de amor atribuídas à sóror Mariana Alcoforado (1640-1723), uma freira portuguesa que viveu no Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Beja, região do Alentejo, e cujo texto é considerado por muitos como referência em literatura romântica, tanto pelo seu primor estético, quanto pela sua grande qualidade literária.
Quem lê as cartas destinadas ao oficial de cavalaria francês, o capitão Noël Bouton (1636-1715), certamente nota a paixão, o amor e a esperança despertadas pelo oficial francês no coração daquela mulher solitária e refinada, que devido as conveniências da época, foi obrigada a ingressar em um Convento aos onze anos de idade. É praticamente impossível ler e não se comover, não se emocionar, não se irritar com o drama que se desenvolve nas entrelinhas desse diálogo e tempos depois, quando a relação deixou de existir e ambos seguiram com suas vidas. Para falar a verdade, Cartas Portuguesas é praticamente um monólogo de amor, uma vez que, pelo que se sabe, as cartas de Bouton para Mariana nunca foram encontradas. Ela menciona essas cartas em sua última resposta ao ex-amante e faz menção ao propósito de devolve-las, uma clara demonstração de sua intenção de terminar de vez aquele relacionamento, porém essas cartas ou foram destruídas ou se perderam nas areias do Tempo . Porém, para a nossa sorte e para o risco de opróbrio da honra de sóror Mariana, Bouton teve o desplante de permitir que as cartas dela fossem publicadas, mesmo que anonimamente, quando ambos ainda viviam, o que causou grande polêmica entre os moralistas da época. Por muito tempo, como não se conhecia a autora do texto, ele foi considerado apócrifo, atribuído ao Conde de Guilheragues, mas em 1.810, o jornal parisiense L’Empire, baseado nas investigações posteriores, desvendou o nome de ambos.
Agora, para se compreender o que aconteceu e o quanto Bouton foi cretino e Mariana vítima das circunstâncias (e da sua paixão) é necessário sair da mentalidade moralista e pequeno-burguesa de nosso mundo e buscar a compreensão do contexto histórico onde ambos estavam inseridos: Ela, uma mulher solitária que se viu de repente vivendo em um convento antes mesmo de ingressar na adolescência, provavelmente sem nenhum tipo de vocação religiosa; ele, um jovem da nobreza e oficial do exército francês, casado e servindo em país estrangeiro.
Pois é, naquela época, quando doenças sexualmente transmissíveis eram praticamente incuráveis e quando não existia nenhum tipo de proteção para as relações sexuais, como temos hoje, era senso comum entre os soldados de alta patente, geralmente descendentes de famílias nobres, buscar amantes em lugares onde a promiscuidade fosse praticamente inexistente. Assim, seduzir uma jovem e virtuosa mulher casada, uma donzela pobre solteira, ou, como no caso de Noel Bouton, uma freira virgem e inexperiente, e mantê-las como amásias durante o período em que estivessem servindo fora de seu país, era pratica comum, embora, quando descobertas, se tornassem motivo de escândalo, ainda mais quando envolviam membros de famílias ricas e influentes, como no caso da família de Mariana.
Noel e Mariana provavelmente se envolveram entre os anos de 1.666 e 1.668, quando ele serviu em Beja com as tropas enviadas pelo rei Luis XIV para auxiliar o rei de Portugal em sua luta contra o rei da Espanha. Quando o tempo de servir acabou e era iminente a partida do oficial francês para o seu lar, Mariana escreveu a primeira carta, um apelo angustiado, no qual se nota a suspeita de que teria sido abandonada, mas ainda assim se percebe nessa carta que ela acalentava remotas esperanças de partirem juntos para a França (“Meus olhos perderam nos teus a única luz que os animava...”; “... Se me fosse possível sair deste malfadado convento, não esperaria em Portugal pelo cumprimento da tua promessa...”).
Noël Bouton era casado e provavelmente não revelou esse detalhe para Mariana, quando as suspeitas do envolvimento entre os dois começaram a circular na região, ele partiu sem responder, talvez por temer um escândalo (a família de Mariana era muito conhecida e rica). Mariana, ao perceber o acontecido, escreve-lhe uma segunda carta, onde a dolorosa constatação do óbvio fica claríssima nesse trecho: (“...me iludi pensando que terias comigo um procedimento mais leal que de costume...”).
Mesmo assim, ela ainda continua escrevendo-lhe da clausura do Mosteiro até se dar conta de que jamais se encontrariam. Eescreve na última carta: “ É mister que o deixe e não pense mais em si. Creio que não tornarei a escrever-lhe. Tenho acaso alguma obrigação de dar-lhe conta de meus sentimentos?”. Impossível não perceber a dor e a desilusão daquela mulher, expressos nessa última frase e não se identificar com elas.
Ao longo dos anos, desde que foram publicadas, as cinco missivas atribuídas a Mariana foram objetos de polêmicas e discussões entre filósofos (Russeau entre eles*) e estudiosos literários, principalmente aqueles que debatem se elas foram realmente escritas por Mariana ou apenas obra fictícia Conde de Guilleragues. O caso é que os originais em português nunca foram encontrados e isso desperta sim a suspeita de que a atribuição de sua autoria a uma freira internada em um convento em Portugal seja apenas golpe de marketing do autor, porém os defensores de que sua autoria seja mesmo de sóror Mariana alegam que ninguém conseguiu explicar de forma plausível o porquê de uma obra escrita em francês conter tantas coincidências sintáxicas típicas da língua portuguesa, coincidências que só se explicariam se elas fossem, lógico, realmente uma tradução literal ou então escritas por alguém que, conhecendo o idioma francês, não o dominava completamente ao ponto de redigir um texto com absoluta perfeição. Era de conhecimento de alguns estudiosos que na casa da família de Mariana, encontrava-se na época vários livros e textos em francês e que o idioma, portanto, não era desconhecido por ela, embora, talvez, não o dominasse completamente, o que, em tese, explicaria tudo. Particularmente eu gosto de pensar que a autoria das cartas são mesmo de sóror Mariana e que esse amor, mesmo com final infeliz, tenha realmente existido, porque, na minha opinião, é melhor amar e sofrer, do que não amar.
Cartas Portuguesas inspiraram filmes, livros, textos teatrais e até mesmo litografias elaboradas por Matisse (1869-1954); o mosteiro de Beja, onde Mariana viveu e que na sua época chegou a ser um dos mais ricos de Portugal, contando com uma população de aproximadamente 200 religiosas, fora as outras internas, como mulheres órfãs e viúvas, foi desativado e parcialmente demolido; Noël Bouton ,exceto pelo envolvimento com Mariana, descrito em Cartas Portuguesas, provavelmente teria seu nome esquecido pela história. Ele viveu com a família até o falecimento, em 1.715; quanto a sóror Mariana, ela superou o ocorrido e se resignou a viver a vida religiosa, onde era muito considerada e respeitada entre os que a conheciam por conta das boas obras e sacrifícios praticados. Tanto reconhecimento, sensibilidade e erudição (se ela realmente foi a autora das cartas) não ficariam sem render frutos e eles legaram à Mariana a posição de abadessa do Convento em Beja, onde ela morreu, já idosa, aos oitenta e três anos de idade em 1723.
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(*) Na polêmica literária que se seguiu sobre a autoria das cartas, o cretino do Russeau, que julgava-as belas demais para serem idealizadas por uma mente feminina (?!), negava-lhes preconceituosamente a autenticidade. Só faltou ele explicar, porque a geniosa mente francesa que escreveu as cartas, não teve a capacidade de escreve-las usando a sintaxe correta do francês, por exemplo. :)

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