segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Polemistas Sem Esperança


A propaganda em si é de uma pretensão patética, já que parte do pressuposto de ensinar algo a mulher comum que ela não sabe. Agora eu pergunto: Por acaso eu, ou você ( seja mulher ou usuário de calcinha), que lê esse post, precisa realmente de dicas sobre como conduzir uma conversa ou seduzir alguém? Essas dicas funcionarão da maneira como a propaganda dá a entender que funcionarão? Não sei. Porém, acho que a maioria que está lendo esse texto vai responder que não, tenho certeza. Outra pretensão do comercial é a humorística, aquela baseada em preconceitos e lugares comuns ingênuos e baratos, daqueles que assombram humorísticos de TV em noites de sábado e finais de semana. Bem, estamos no Brasil, né? Esperar senso de humor “britânico”, quando o que rola é pastelão e gags estreladas por tipos estereotipados usando bordão é esperar de mais.

Que a propaganda é preconceituosa, não há como discordar. Homens e mulheres batem seus carros todos os dias, muitos homens e mulheres estouram os limites de seus cartões de crédito todos os meses, então ela é preconceituosa por vários motivos, mas o principal é aquele que coloca a mulher na posição de manipuladora (ingênua) de uma situação hipotética e mostra o homem como um ser tosco, burro e incapaz de processar uma notícia quando vê uma fêmea semi-nua na sua frente. Sim, existem homens que se deixam levar por uma oportunidade de fazer sexo e sim, existem mulheres que exploram isso. Porém, nem todos são assim, ou seja, a propaganda ofende os dois gêneros, mas... Perá lá, os humorísticos de TV, novelas e filmes fazem isso direto e reto e até agora ninguém pensou em proibi-los, então qual é o problema? As calcinhas são ruins? Dão alergia? Eles prometeram que elas criariam a ilusão de ótica de transformar minha tia Cotinha em uma magérrima loira de olhos claros e peitos gigantes, uma típica “mulher brasileira”? Ah tá...

Vou te dizer o que me chateia nessa história toda, o que me chateia é viver em um país onde se proíbe comercial em TV, porque algumas pessoas ficaram ofendidas com o que se mostra nele e acham, não sei baseadas em qual pressuposto, que publicidade deve seguir ideologias políticas. Tenho medo da postura autoritária dessas pessoas que querem liberar a prática do aborto, mas por outro lado acham perfeitamente normal o Estado, através de um órgão regulador, “cassar” os direitos alheios, porque eles vão de encontro às suas ideologias. Para mim, desejar ou colaborar para a restrição da publicidade e divulgação de idéias, mesmo aquelas que divergem drasticamente das nossas, é algo profundamente antidemocrático e que sempre carrega um ranço ditatorial. Não gosto, não aprovo e não posso querer isso, mesmo achando o tal comercial uma grande bobagem.

O problema desse pessoal que fica reclamando de propaganda na TV é que eles não entenderam ainda que a prioridade do marketing é vender um produto. O comercial não está ali para defender ideologias sejam elas “de esquerda” ou “de direita”, menos ainda algo tipo “direitos humanos” ou dos animais. Uma propaganda de casacos de pele ou de carro com bancos de couro, por exemplo, está pouco se lixando para os direitos dos animais; uma propaganda de calcinha ou de cerveja, teoricamente, não se importará em reforçar um estereótipo machista, tampouco. Isso te incomoda? Pois é, me incomoda às vezes, mas como eu vivo em um sistema capitalista, tenho que suportar o moço da feira gritar para mim que “moça bonita não paga, mas também não leva”. Porém, justamente por saber que vivo em um sistema capitalista, eu sei que a forma mais eficiente de se protestar contra esse tipo de desrespeito é justamente não comprar a marca anunciada.

E finalmente, não entenda que esse post é uma forma de tentar proibi-lo(a) de reclamar quando vê, ouve ou lê algo que discorda. É seu direito fazer isso, assim como é seu direito ficar de mimimi no blog ou no Twitter, porque não gostou de uma ou outra propaganda ou programa de TV, mas saiba que isso só serve como forma de propaganda indireta e, no caso da propaganda de calcinha, só reforça minhas suspeitas de que essa polêmica toda foi esperada pelos idealizadores da campanha e, quem sabe, contabilizada.  Porque nunca se falou tanto no nome dessas calcinhas e no fato do comercial “daquela modelo famosa” ter sido proibido, como tem se falado ultimamente.

Quer dizer... Mesmo suspenso, o comercial continua gerando publicidade indireta em torno da marca. Virou uma espécie de meme e nem precisa mais da TV para se propagar. Porque você acha que não citei no nome dessas calcinhas até agora nesse texto?
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Update: quando falei sobre essa polêmica ser esperada e contabilizada, obviamente estava falando sobre os idealizadores do comercial, lógico. E isso fica claro nos parágrafos seguintes. Obviamente não preciso ensinar interpretação de texto p/ ninguém. Espero.

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