sábado, 29 de janeiro de 2011

Documentário: O Homem Urso (republicação)

Lembro-me de um pastor alemão que meus avós tinham em casa quando eu era pequena. Ele não era muito bravo, mas como os vizinhos recém chegados possuíam um gato vira-latas, minha avó achou que seria prudente manter o cachorro preso durante a noite. O quintal era enorme, mas isso não impedia que o bendito gato sempre andasse, todo desafiador, por sobre o muro. No começo era apenas alguns metros, o cachorro latia e ele rapidamente corria e saltava para o lado de sua casa. Até aí, nada demais, gatos testam os limites de seu território, tentando sempre ampliá-lo. Só que com o passar do tempo o gato foi ficando mais confiante e o cachorro mais furioso. A coisa evoluiu até ao ponto em que o gato cruzava toda a extensão do muro e o cachorro não latia mais. Apenas observava o caminhar elegante, o rabo erguido desafiadoramente e depois, quando o gato saltava para dentro dos limites de seu próprio quintal, o cachorro voltava para o seu canto e deitava, silencioso.

Um dia, o gato achou que era o momento de aumentar o seu território. Começou a cruzar ostensivamente o quintal durante o dia e, quando percebia a proximidade do cão, corria, saltava para o muro, onde andava - indiferente aos fortes e indignados latidos – por toda sua extensão até pular para a segurança de sua casa. Depois disso, virou putaria. O gato perdeu o respeito e a noção do perigo começou a cruzar o quintal, cada vez mais longe do muro e cada vez mais perto do cachorro. Todos ficaram temerosos de que um dia o cão alcançasse e matasse o gato, mas o bichano era esperto e sempre se safava. Essa rotina foi se repetindo até ficar tediosa e todos se cansarem dela, exceto - claro - o gato e o cachorro. Assim, o gato continuava invadindo o quintal, o cão corria para atacá-lo e o gato saltava para o muro, o cão latia indignado e o gato andava por toda sua extensão até chegar em casa.

Um dia, plena madrugada, e meu avô mais uma vez escutou o rosnado furioso, seguido pelo tropel das patas do cão correndo pelo gramado. Era o gato. Mas dessa vez não houve latidos furiosos. Somente o silêncio reinou até o amanhecer. Meu avô voltou a dormir e pela manhã, quando minha avó acordou para fazer o café, encontrou o cão e o gato juntos, isto é, encontrou o cão e os pedaços que sobraram do gato. A cabeça do bichano jazia junto a porta, perto das patas do cão, a parte dianteira do corpo encontrava-se próxima a um vaso de folhagens e a traseira, juntamente com as víceras parcialmente mastigadas, estavam regurgitadas junto ao muro. O gato finalmente pagara o preço por chegar perto demais do cão e longe demais do muro.

Lembrei-me dessa história quando vi o documentário sobre a vida de Timothy Treadwell, um pseudo-ambientalista norte-americano que se mandou para o Parque Ecológico de Katmai, no Alaska, e passou 13 anos filmando e convivendo com os Ursos cinzentos. Convivendo mesmo, porque contrariando o que todo ecologista sério evita fazer, Timothy se aproximava demais dos animais, interferindo em suas vidas. Chegou tão próximo deles que um dia ele se deu mal. O documentário foi feito a partir das 100 horas de filmagens encontradas pelo piloto junto aos restos dos corpos de Treadwell e sua namorada do momento, Amie Huguenard. Todas as fitas foram usadas no documentário, excessão a última, justamente a que gravou os gritos agoniados de Timothy e Amie enquanto seus membros eram destroçados e devorados por um dos ursos que ele tanto amava.

A lição básica que um ecologista precisa saber - e que Timothy, pelo jeito não sabia - é que na Natureza, presas são presas e predadores são predadores. Por isso, ao observar animais selvagens, sempre é bom guardar certo respeito por eles. Animais podem ser lindos e parecerem fofinhos, mas eles não existem para serem acariciados e conviver com eles não é necessariamente se aproximar e abraçá-los como se fossem bichos de pelúcia. Timothy - e o gato - ficaram confiantes, porque baseados numa experiência anterior, julgaram que nada lhes aconteceria. Um dia a situação mudou e eles pagaram o preço por desafiar a sorte.

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