Certa noite, saindo de uma festa na casa de uma amiga completamente alcoolizado, um belo, jovem e promissor ator sofreu um acidente de carro, quase morreu e ficou com o rosto desfigurado. Ele não sabia, mas momentos antes, sua melhor amiga, a moça da festa, ficou preocupada ao vê-lo entrar no carro completamente embriagado e resolveu seguí-lo até em casa. Foi ela que o encontrou após o acidente e tomou todas as providências para salvar sua vida, seu emprego e sua dignidade. Foi ela que impediu que fotos sensacionalistas do acidente fossem publicadas nos jornais. Foi ela que abafou o escândalo ao afastar a imprensa e pagou todas as despesas médicas, além de uma pequena fortuna para que o rapaz tivesse o belo rosto reconstruído. Foi ela que também conseguiu garantir o emprego dele até sua recuperação e a retomada de sua vida profissional. Quanto ao rapaz, ele melhorou, recuperou o emprego e voltou a atuar, mas embora não tivesse ficado inválido e recuperado parte de sua beleza, ele se tornou um homem amargurado e solitário. Eles não se casaram, nem viveram uma "tórrida" história de amor, porém a jovem que o salvou, nunca o abandonou; cuidou dele até o dia de sua morte.
Parece enredo de filme de amor? Pois é, embora a pequena história acima pareça enredo fictício de um romance de banca de revista, ela realmente aconteceu: O jovem acidentado era Montgomery Clift e sua boa samaritana era Elizabeth Taylor. Imagino que boa parte dos meus (agora) poucos leitores já conheça essa história faz tempo, porque ela é contada e recontada em todas as biografias de Clift e em diversos livros sobre os Mitos de Hollywood. Para mim ela serve para ilustrar que a tão falada beleza de Elizabeth Taylor era algo mais profundo que aquilo que víamos em seu rosto e seu corpo. Elizabeth sempre foi uma mulher fiel aos seus amigos, dessas que a gente pode contar sempre, eu imagino.
Como eu já disse aqui, associar Elizabeth com aquela figura débil e encarquilhada de uma velhinha excêntrica e coberta de jóias que eventualmente aparecia no Oscar é um erro. Ela foi sim uma mulher notável e muito querida pelos que a conheciam, não só pelos seus filmes, mas também pelas suas ações fora da tela. De saúde frágil, sabia ser forte quando era necessário; aparentemente leviana ou fútil, mas capaz de mostrar grandeza e desprendimento que muita perua nem sonha em ter, nem que vivesse dez encarnações seguidas.
Senti particularmente sua morte, tanto quanto senti a de Paul Newman ou Michael Jackson, o qual também desfrutou de sua amizade. Naquele momento, nunca me pareceu tanto que o "fim" de uma Era estava ali, próximo de mim, olhando minha face.
A galáxia dos grandes astros e estrelas da Hollywood clássica, aquela que nos ensinou a amar os filmes, está se apagando gradativamente, nos deixando sozinhos nas trevas da mediocridade. Um lugar frio e vazio, onde atores e atrizes histéricos conseguem fama mostrando a bunda ou expondo a vida pessoal em programas de TV, num processo que eu só posso classificar como charliesheenização da sétima arte.
Pensei muito se deveria escrever um texto póstumo sobre Elizabeth Taylor, porque não queria que o blog ficasse parecendo um necrológio. Porém, depois de ler essa notícia aqui, concluí que seria injusto não homenagear uma atriz que sempre admirei, tanto por seu talento, quanto por sua beleza; mais ainda por seu envolvimento em causas sociais e filantrópicas. Descanse em paz, bela Elizabeth, aquela dos olhos cor de violeta.

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