Título: The Tree of Live (Árvore da Vida); Ano: 2011; Direção/Roteiro: Terrence Malick; Gênero: Drama; Elenco: Brad Pitt, Sean Penn, Fiona Shaw (Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1), Jessica Chastain (A Dívida), Hunter McCracken, entre outros.O novo filme de Terrence Malick, Árvore da Vida, não é um filme desses que o grande público está acostumado a ver no cinema. Malick pertence aquela classe de cineastas que fazem filmes que desafiam o espectador a buscar um entendimento sobre aquilo que vê. E, às vezes, nem sempre você, enquanto espectador, consegue captar o que o autor da obra quer nos mostrar. Não em um primeiro momento. É necessário, às vezes, que você faça uma reflexão, pensando e repassando cenas do filme em sua mente e se perguntando: será que é isso mesmo?
Realmente, as obras de Malick, apesar de serem poucas são como pequenos tratados de filosofia, o que não surpreende, já que o cineasta estudou filosofia na Universidade de Harvard, uma das mais conceituadas do mundo, lugar onde ele se formou com as mais altas honras em 1965. Depois quando o cineasta tentou fazer um doutorado em Oxford, ele teve que abandonar seu doutorado devido a divergências com o seu coordenador. Imagino que ele deve ter ficado meio frustrado com isso, porém continuou sua vida e foi dar aulas de filosofia no Instituto de Tecnologia de Massachussetts, trabalhando paralelamente como jornalista. Quer dizer, ele é do tipo que sabe como provocar e como chegar ao seu público, para dizer o mínimo. E pelo jeito não abandonou suas convicções filosóficas, sejam elas quais forem.
Daí que não é surpresa que Árvore da Vida se apresente como um filme “pensante”, um filme que não trata propriamente da divindade ou da busca humana pelo sentido da vida, mas trata da angústia humana diante do vazio que sentimos quando confrontados com o aparente abandono e silêncio divino em face do nosso sofrimento. Podem dizer o que quiserem, mas o filme tem uma atmosfera altamente sacralizada e a trilha sonora do francês, Alexandre Desplat, aliada a fotografia com closes de imagens belíssimas, contribuem muitíssimo para isso.
Para falar a verdade, o filme já nos dá pista sobre o que trata logo no início, quando se apresenta para o espectador uma citação do Livro de Jó, um dos livros mais contestadores da Bíblia. Quem leu o livro de Jó sabe muito bem que, nele, o escritor nos coloca diante do drama de um homem que perde tudo e se põe a questionar o próprio Deus sobre qual o sentido do sofrimento e sobre como funciona a tão proclamada justiça divina. Também percebi uma forte influência do pensamento de Kierkegaard nesse filme, até mesmo de sua biografia, particularmente no que diz respeito a angústia do garoto em face de algo que foge ao seu entendimento e no conflito dele com o pai.
É nesse contexto que somos apresentados a uma pequena família, que tem Brad Pitt e Jessica Chastain como pais de três filhos, mas é sob a ótica do mais velho, Jack, que será vivido na fase adulta por Sean Penn, que o filme deve ser compreendido: O garoto é a chave. O filme se desenvolve dentro de um pequeno drama familiar – logo no começo do filme um dos filhos morre e a mãe se desespera e encontra grandes dificuldades para aceitar a perda, se revoltando, lógico contra Deus-, mas poderia ser outro drama qualquer. Não é um filme linear, você se sente como estivesse dentro da cabeça de outra pessoa, como se todas aquelas imagens fossem as memórias e pensamentos do filho mais velho (Sean Penn) em sua busca para o entendimento de como a tragédia da morte de seu irmão e do conflito com seu pai (Brad Pitt) afetou sua vida.
Várias vezes vemos (e ouvimos) na voz da mãe desesperada, ecos dos gritos de Jó, quando ela fala com Deus em tom de revolta e pergunta: Onde está você? E a resposta, sempre pela ótica do garoto, são imagens belíssimas da natureza, talvez uma forma de Malick fazer uma conexão entre o micro universo daquela família e o macro universo, representado pela natureza. Só não entendi se para Malick Deus e a Natureza sejam uma coisa só, pelo filme parece que essa é a idéia, embora talvez sua intenção seja mostrar Deus como uma força invisível agindo inexoravelmente na Natureza através do tempo. Pelo menos no que se refere ao entendimento da personagem principal, vivida por Sean Penn.
O filme foi premiado em Cannes, ganhou a Palma de Ouro do 64º festival, apesar disso soube que a platéia e parte dos críticos se desesperaram com o excesso de imagens da natureza usada por Malick e muita gente não reagiu positivamente quando o filme foi mostrado: Houve vaias depois da apresentação para o público . Realmente, um filme com poucos diálogos e muitas imagens pode causar descontentamento do grande público, acostumado com produções estilo Wood Allen, cheios de diálogos longos e cansativos, pretensamente inteligentes, ou aqueles filmes "cabeça" onde alguma personagem resolve em algum momento da história fazer um longo discurso filosófico tentando convencer o espectador sobre a profundidade daquilo que o diretor quer mostrar.
Árvore da Vida é filme para ser visto, para fazer o espectador pensar. Há narração em off, principalmente nos momentos onde se apresenta o drama familiar. No mais, quando as personagens falam, suas falas são meras ilustrações para os momentos vividos por eles, nada mais. O fato de Bad Pitt entrar mudo e sair quase calado não faz diferença ali, pois quem brilha mesmo é o garoto que faz o filho mais velho, vivido por um jovem ator chamado Hunter McCracken. É dele a maior parte das falas do filme. Nota: 8.
Nenhum comentário :
Postar um comentário