domingo, 5 de junho de 2011

Conto: Relacionamento Virtual

Certa vez, no Twitter, eu seguia certa pessoa, conhecida das antigas e mandei um reply discordando dela. A resposta veio na forma meio desaforada (e inesperada), algo que me surpreendeu um pouco, mas relevei. Porém confesso que na hora eu me senti como um cachorro que ao latir cordialmente para alguém conhecido leva um chute na boca. Saca? Pois é... Levei uma voadora de coturno no focinho. Caim, Caim...

Pensei que certamente tal pessoa estava num mal dia, sei lá, e, tal como o cão, eu não me importei, porque eu, tal como um cão (no caso, cadela), tolero muita cagada de quem eu gosto, sejam eles pessoas virtuais ou reais. Além do mais, sempre tive tal pessoa em alto conceito; achava ela tolerante, centrada, aberta ao diálogo, etc. Porém, pelo jeito, as coisas estavam mudando e mudando em relação a mim. Ouquei, até aí, cada galho no seu macaco (sic), não vou ficar aqui julgando ninguém, até porque, mesmo achando a nova postura da pessoa meio deslumbradinha e alienante, o direito de escolha inerente a todos deve ser sempre respeitado, quando muito, lamentado.

Um belo dia de sol, eu descubro que a tal pessoa fez outro perfil, secreto, e chamou só as amigue(sic) pra lá. Fechou a porta com cadeadinho e eu fiquei de fora, com cara de cu. Novamente aquela sensação desagradável, tal qual a do cachorro cujo dono muda de casa e o deixa para trás, abandonado. Ainda assim, não me ofendi, mas também desencanei e deixei de seguir o outro perfil, o que era público, porque, afinal de contas, se não fui convidada, não quero fazer parte de nenhum clubinho, cujo dono não me aceite como sócia. Um belo dia, descubro que a tal pessoa abriu o perfil, aquele do cadeado. Oh, que legal, fui até lá ler (porque eu não tenho muita vergonha na cara), mas mesmo assim eu não segui, porque... Né? Vergonha na cara aqui é pouca, mas mesmo assim nós trabalhamos.

Hoje eu tive a certeza que já deu. Fui lá, no perfil da pessoa stalkear, um stalkeamento do bem, lógico, e li uma conversa bem alienante e maniqueísta, dessas que dividem o mundo entre “nós” e “eles”, que eu simplesmente detesto. Nesse momento a imagem idealizada que eu tinha construído e que estava cheia de frestas e rachaduras, desmoronou completamente e eu finalmente percebi por trás dela o discurso vazio de alguém que nada tem a me acrescentar, pelo contrário. Naquele exato momento, tudo o que senti foi vergonha por mim e por ela, só isso. Tudo o que eu pensava era: “mas que merda eu estou fazendo aqui?” e “porquê ainda insisto em ler o que essa pessoa escreve?”.

Então, o quê posso dizer que aprendi com essa história? Que não era para ser? Realmente não era (e a pessoa percebeu isso bem antes de mim, para minha completa vergonha e mérito dela).
Deixei de existir para ela há muito tempo e não havia percebido. Hoje ela deixou de existir para mim... E ela vai continuar não percebendo.

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